cultura

A livraria mais pitoresca de Oeiras é um refúgio para os amantes de livros

Fundada por Ana Paula Faria e hoje também liderada pela filha Inês, a Gatafunho é um sítio onde todos se sentem em casa.

Ainda criança, Matilde habituou-se a ir à Gatafunho ouvir histórias. Já pré-adolescência, aparecia nas festas do Harry Potter. Depois, como acontece a tantos miúdos quando crescem, os livros ficaram para segundo plano. Regressou alguns anos mais tarde, já com 17, através da tertúlia de leituras, e tornou-se uma das participantes mais assíduas do grupo. Ana Paula Faria e Inês Araújo, mãe e filha e sócias da livraria, contam esta história com os olhos a brilhar. Este é apenas um exemplo dos muitos clientes cujo crescimento acompanham e a quem ajudam a formar como leitores.

A livraria do Largo 5 de Outubro, em Oeiras, nasceu de uma paixão antiga. Tudo começou em 2005, quando Ana Paula, de 67 anos, criou uma editora de livros infantis e viajava duas vezes por ano para feiras internacionais, como a Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha. Voltava sempre com a certeza de que havia títulos extraordinários e de que não conseguia publicar todos. A solução foi abrir uma livraria, um espaço de livros escolhidos a dedo, incluindo obras noutras línguas, em vez de um sítio dedicado às novidades em massa.

A Gatafunho abriu primeiro em Lisboa, em 2011, mas grande parte dos clientes vinha da linha de Cascais. Então surgiu a ideia lógica: se as pessoas se deslocavam até à livraria, o melhor era a livraria ir até elas. No dia 8 de março de 2014 abriram em Oeiras e a loja tornou-se rapidamente uma referência cultural no concelho. “Abrimos a livraria para ficarmos mais perto do público. Somos um espaço acolhedor. Queremos que as pessoas se sintam em casa”.

Ao lado de Ana Paula está a filha, Inês Araújo, de 33 anos, que cresceu dentro deste projeto. Esteve presente nas feiras internacionais quando a mãe tinha a editora, acompanhou a abertura da livraria em Lisboa e, hoje, faz parte do dia a dia da loja em Oeiras, da qual já é sócia. Fez licenciatura, pós-graduação e mestrado em Letras na Universidade de Lisboa, mas a entrada no negócio de família sempre foi inevitável. As duas complementam-se: Ana Paula traz décadas de conhecimento editorial e Inês uma energia renovada e uma ligação próxima às gerações mais novas de leitores.

Livraria Gatafunho
O verdadeiro dono da Gatafunho.

Há também um terceiro elemento incontornável: Lu, o gato da livraria. Ou melhor, o verdadeiro dono. Há quem passe por ali todos os dias só para lhe dar festinhas, miúdos do bairro que fazem da Gatafunho uma paragem obrigatória mesmo quando não precisam de nada. O nome da livraria, aliás, é uma homenagem ao animal favorito de Ana Paula e um trocadilho com o universo infantil: “gatafunho” é um rabisco, um traço confuso e sem forma, a caligrafia de uma criança que ainda está a aprender. Para uma livraria nascida de uma editora de livros infantis, não podia haver nome mais acertado.

A agenda do espaço é uma das mais preenchidas de Oeiras. Todos os domingos do ano, às 11h30, há sessões abertas e gratuitas com um contador de histórias, um ritual que se mantém há 13 anos, faça chuva ou faça sol. Há também os “cromos da leitura”, um encontro mensal onde os miúdos partilham as suas leituras com outros miúdos, além de oficinas de origami.

Mas talvez o evento mais especial seja a tertúlia, que acontece todas as sextas-feiras à noite, às 21 horas, e existe desde que a livraria chegou a Oeiras. O formato pede a todos que revelem o que estão a ler ou ouvir. Pode ser um livro, um artigo de jornal, uma revista ou um poema. O importante é partilhar o gosto pela leitura.

É nestes eventos que se criam os laços que fazem da Gatafunho muito mais do que uma livraria. “As famílias de Oeiras vivem muito os espaços à sua volta”, diz Inês. A livraria conhece os clientes pelo nome, acompanha famílias ao longo dos anos e há quem chegue com um problema concreto à espera que um livro o resolva. Os miúdos têm medo do escuro? Há um livro para isso. Não dormem à noite? Também há solução.

As livreiras têm um radar afinado para estas situações, percebem rapidamente o que a pessoa precisa, fazem as perguntas certas e raramente falham na sugestão. “É muito gratificante quando nos dizem que resultou”, conta Ana Paula.

Livraria Gatafunho

Além dos livros infantis, infantojuvenis e para adultos, a Gatafunho tem também jogos de tabuleiro, uma escolha intencional, já que a livraria sempre quis incentivar a interação entre os membros da família, não só através das histórias mas também de atividades que possam fazer juntos. Há ainda cadernos para anotações, postais e alguns objetos de decoração, muitos deles com motivos de gatos, que celebram o prazer de fazer as coisas à mão e de oferecer algo com significado. Para quem não conseguir passar por Oeiras e perder as festinhas ao Lu, existe também uma loja online.

Agora que o verão se aproxima e os dias convidam a aproveitar cada minuto de leitura, na praia, no jardim ou numa esplanada, Ana Paula e Inês têm várias recomendações para todos os gostos. Para os que não resistem a uma boa história, a sugestão é “As Planícies”, de Gerald Murnane (Relógio D’Água, 16€): um jovem cineasta chega a vastas terras rurais onde famílias preservam uma cultura singular e, vinte anos depois, inicia o relato de uma vida inquietante passada entre a memória e a obsessão.

Para quem gosta de contos com peso literário, Salman Rushdie assina “O Último Instante. Um Quinteto de Histórias” (Dom Quixote, 22,20€), cinco histórias sobre a vida e a morte que percorrem a Índia, Inglaterra e os Estados Unidos. Os leitores de banda desenhada vão querer conhecer “Vizinhos”, de Ana Bárbara Pedrosa e Nuno Saraiva (ASA, 17,90€), quatro histórias onde o quotidiano de paredes finas revela solidão, violência e necessidade de pertença, tudo com humor negro e muita humanidade. Para quem prefere um bom ensaio, Terry Eagleton assina “Modernismo: Uma Literatura em Crise” (Edições 70, 18,90€), uma viagem pela erupção cultural que moldou a literatura de Virginia Woolf a James Joyce.

E, para terminar, fica uma sugestão para os que ainda não experimentaram a poesia. “Ser Uma Árvore”, antologia poética de Ursula K. Le Guin (Sr. Teste, 16€), surge numa edição especial de 35 exemplares numerados e carimbados, com tradução de Ana Marta Caio, precisa, íntima e difícil de largar.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Largo 5 de Outubro, n.º 9/10/12

    2780-225 Oeiras
  • HORÁRIO
  • Terça a sábado das 11h às 19h
  • Domingo das 11h às 14h

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