Uma televisão da Philips antiga, ainda com botões, um telefone fixo preto, a disco, e peças de roupa à antiga, como pijamas polares ou batas de senhora, compõem o cenário da Casa Mário, uma loja de confecções com 50 anos situada no Largo de Paço de Arcos.
Mário Santos, o proprietário, começou a trabalhar “com apenas 11 anos”. Este sábado, dia 7 de fevereiro, faz 80 anos e um dos desejos quando soprar as velas é simples: “não parar de trabalhar”, confessa.
“Com 11 anos, a minha mãe pediu-me para arranjar um trabalho para a ajudar. Vivia em Alcântara e fui até à Baixa de Lisboa à procura de uma oportunidade qualquer. Encontrei uma loja de roupa e fiquei logo lá”. Em 1956 conseguiu o seu primeiro emprego nos armazéns e loja de São Domingos, que vendiam malhas unissexo, batas, jogos de lençóis, batas e pijamas.
“Recebia apenas 200 escudos, que na altura não era nada. Vivíamos mal antes do 25 de abril. Até aos 16 anos, era eu que ia todos os dias levar o dinheiro que se fazia na caixa aos escritórios. Ia do Largo de São Domingos, muitas vezes de noite, até à Calçada do Desterro, sozinho e com medo que me assaltassem”, recorda.
Ficou a trabalhar na mesma casa durante 18 anos, apesar de se ter ausentado três anos, para ir para a Guerra do Ultramar. “Fui obrigado, eu e todos os que lá estavam. Já vivia com a minha mulher, que estava grávida e mesmo assim não me deixaram ficar. Embarquei em janeiro de 1961 e, em fevereiro, ela teve o bebé”, conta.
Quando regressou, decidiu que queria viver “perto do mar” e Oeiras pareceu ser a melhor solução. “Sempre gostei muito de Paço de Arcos, vinha à praia muitas vezes e arranjei uma loja para ter o meu negócio”, conta. O “alfacinha” abriu a Casa Mário há 50 anos e, desde então, trabalha sozinho. “Só estou cá eu. Subo aos escadotes para procurar referências, carrego caixas e faço encomendas”.
Na Casa Mário, as peças de roupa acompanham as tendências, mas a forma de trabalho é feita “à moda antiga. Ainda faço as contas com papel e caneta para entregar ao contabilista”. Aqui ainda encontra pijamas, jogos de lençóis, toalhões de banho, camisolas e batas, calças de moda masculina e feminina, saias, roupa interior e meias. “Só este inverno acabei com o stock de edredons polares. Tive de repor tudo depois do Natal”.
Apesar do comércio local estar em declínio, a Casa Mário continua a vender o “que só se encontra em espaços deste tipo”, como lençóis de qualidade, camisolas de algodão ou camisas de noite. “As pessoas vêm aqui há procura de qualidade, que não há nos supermercados”.
Entre os clientes habituais, há quem venha de longe para ter os produtos da loja de Paço de Arcos. “Tenho uma senhora que se mudou para Trás-os-Montes e ligam-me a pedir encomendas. Junto tudo e envio”, diz.
Enquanto a saúde permitir e conseguir subir os dois escadotes, o Sr. Mário não vai fechar portas. “Gosto muito de trabalhar e da rotina, não quero ficar parado”.
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