Uma esfregona, dois cadeados, uma barra de sabão azul e branco, um alicate, um cesto, pincel de barba, pesticida e três tigelas. Esta poderia ser a lista de compras de qualquer oeirense e o mais certo era ter de passar por lojas diferentes para conseguir dar conta do recado. A verdade é que é possível ter tudo isto, e tantas outras coisas que nem imagina, na Drogaria do Sr. Barata, que há mais de 65 anos está de portas abertas em Caxias.
“A minha mãe abriu esta loja em 1960 como sendo uma drogaria. Com 14 anos fartei-me de estudar e decidi vir trabalhar com ela. Vendíamos um bocadinho de tudo”, conta Manuel Barata, oeirense de 78 anos.
E quando se diz tudo, é mesmo tudo. A loja comprida conta com várias estantes, azuis em tempos, mas que agora são verdes ditadas pelo sol que bate através das janelas. A disposição dos produtos tem uma ordem, de um lado pesticidas junto com materiais de obras, de outro produtos de higiene, como gel de mãos, cremes Nivea e até ceras para o cabelo.
“As drogarias já não são o que eram. Tínhamos televisões e eletrodomésticos, como frigoríficos e máquinas de lavar. Aliás, antes vendíamos as drogas, agora vem tudo embalado”. Estas drogas referidas pelo Sr. Barata, como é cumprimentado por quem passa à sua porta todos os dias, eram os produtos químicos que só se encontravam em estabelecimentos como este, como os diluentes.
“Vendia-se tudo avulso e fazíamos aqui os produtos. Tínhamos gesso e cimento ao quilo, fazíamos à mão cera, gel e brilhantina para o cabelo das senhoras”, conta. “Com 14 anos fazia lixívia num fogão a petróleo, juntava água com hipoclorito de sódio. Depois, as pessoas vinham cá com a garrafa e enchíamos. Tínhamos um livro de receitas para sabermos as quantidades que deveríamos juntar”, recorda.
Nesses tempos, também as bilhas a gás eram um dos produtos mais requisitados da loja. “Chegava a carregar 30 por dia, ia sozinho pelas ruas de Caxias entregar às casas dos clientes”.
Novos costumes, novos hábitos
Depois do 25 de abril, os costumes foram mudando e, com eles, os hábitos das pessoas. Deixou de se vender produtos químicos nas lojas e passou tudo a ser levado em caixas e embalagens. O que fica para recordar os anos antigos é o cheiro.
“Já não sinto o cheiro a químicos por aqui. Estou nesta casa há 64 anos, até já os móveis mudaram de cor. O produto mais antigo que vendo é a solarina, para limpar o amarelado dos metais, que não se encontra em qualquer lado”, afirma.
Para completar as montras, não faltam molas de roupa, parafusos, ferros de engomar, materiais de jardinagem e até shampoos já descontinuados nos supermercados, porque o que não há é o que se precisa: “Só não vendo dinheiro”.
Quem vai na rua e já é da “casa” sabe que o Sr. Barata tem as portas abertas quando coloca as vassouras penduradas na entrada, mas para quem vem de fora pode aparecer de segunda a sexta-feira, das 8 às 13 horas e das 14h30 às 18h ou aos sábados das 8 horas às 12h30.
“Não quero deixar de trabalhar, aqui tenho a companhia da rádio todos os dias, de quem passa e me cumprimenta e daqueles que procuram o que só encontram aqui. Já não é pelo dinheiro”, remata Manuel Barata com um sorriso.
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