Uma pulseira de missangas japonesas pode demorar quatro horas ser feita. Conta a conta, sempre feita à mão e sempre diferente da anterior. É essa paciência que Madalena Sintra Duarte, de 58 anos, aplica em tudo o que faz. Das pulseiras e colares da Madbi à roupa da Bagattelas, passando pelo grupo de Facebook que, desde 2010, reúne antigos vizinhos do Bairro da Medrosa, em Oeiras, há um traço comum que liga tudo o que faz: criar projetos com carinho, dedicação e atenção ao detalhe.
Esse cuidado não nasceu do nada. O pai de Madalena trabalhou na Typographia do Annuario Commercial, fundada em 1880 e uma das maiores potências tipográficas de Lisboa, responsável pela impressão do icónico Anuário Comercial de Portugal e de jornais como o Diário de Notícias e A Capital, instalada onde hoje funciona a LX Factory. Foi lá que imprimiu, mas viria a sair para montar o seu próprio negócio, a Negócios Artes Gráficas, primeiro no Bairro Alto, depois num espaço maior, nos Anjos, já com uma máquina de impressão a uma cor.
Depois dessa saída, e já com a empresa própria do pai, que Madalena, com 19 anos, começou a trabalhar com ele, na parte de composição e montagem — um trabalho manual e minucioso, já próximo do ofício artesanal que viria a assumir mais tarde. “Gostava da parte da criatividade”, diz — e foi essa proximidade que a levou a escolher o curso de Publicidade, que fez à noite no Instituto de Novas Profissões, enquanto trabalhava de dia.
Quando o sócio do pai morreu, a empresa acabou por fechar. Seguiram-se três anos como secretária de administração numa empresa de máquinas de construção, representante da JCB, entre outras marcas, até seguir para uma nova paragem, desta vez provocada pela crise no setor. “Confesso que cada dia que ia trabalhar, pensava assim: eu não vou fazer isto toda a vida, porque não é isto que eu gosto”, recorda.
Foi precisamente durante esse período de desemprego, em março de 2010, que tudo mudou. Uma vizinha sugeriu-lhe que começasse a fazer alguma coisa para ocupar o tempo e, quem sabe, ganhar algum dinheiro. Com um filho de oito anos e vontade de passar mais tempo com ele, começou a experimentar fazer acessórios.
As primeiras peças eram simples pulseiras de cabedal personalizadas consoante fossem para rapaz ou rapariga. Rapidamente percebeu que queria ir mais longe. “Qualquer pessoa conseguia fazer aquilo”, recorda. Passou para fios de algodão encerado, acrescentou pequenos pingentes e começou a aprender novas técnicas através da internet.
O passatempo foi crescendo entre encomendas de amigas e conhecidas até dar origem à Madbi. 16 anos depois, trabalha sobretudo com missangas japonesas Miyuki, aplicadas uma a uma, e pulseiras de macramé cheias de cor. Cada peça pode demorar cerca de quatro horas a concluir e raramente há duas iguais, já que evita repetir combinações de cores e padrões. Os preços variam entre 15€ e 29€, consoante os materiais e a complexidade.
Em maio de 2016 nasceu um segundo projeto. Juntou-se a quatro amigas para criar a Bagattelas, já que o rendimento da Madbi não era suficiente para equilibrar as contas. Com o tempo, as sócias foram saindo, até Madalena assumir a marca sozinha.
Ao contrário da Madbi, a Bagattelas não produz as peças que vende. A marca dedica-se à revenda de roupa, maioritariamente fabricada em Itália e adquirida através de fornecedores espanhóis. Ainda assim, toda a seleção passa pelo olhar de Madalena, que procura tecidos naturais, como linho e algodão e tenta fugir às escolhas mais comuns dos mercados. “O que ela tem, eu já não quero igual”, resume. É precisamente essa diferença que, diz, muitas clientes destacam.
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O nome Bagattelas inspira-se na palavra “bagatela”, algo de pouco valor. A ideia sempre foi vender roupa a preços justos, sem margens exageradas. “O que eu quero é que a pessoa compre a um preço justo, mas que também seja justo para mim, para ter o meu lucro”, explica. A coleção muda de estação para estação e, neste verão, as peças mais procuradas têm sido saias de malha fria, camisas e vestidos de linho. O público é sobretudo feminino, acima dos 40 anos, embora muitas filhas acabem por acompanhar as mães e também façam compras. Os preços começam nos 24€ e chegam aos 50€.
As duas marcas vivem sobretudo dos mercados. Está regularmente no Mercado de Cascais e em vários mercados de Lisboa. Tem ainda um espaço de exposição da Bagattelas no Café e Coco, em Oeiras, graças à amizade com a proprietária, enquanto a bijuteria da Madbi pode ser encontrada na loja do Museu da Marinha, em Lisboa, e, até ao final de agosto de 2026, na loja da Fortaleza de Sagres. A rotina implica montar e desmontar banca todos os fins de semana, um esforço que compensa pela liberdade de gerir o próprio tempo e pelo contacto direto com as clientes.
A vontade de criar comunidades não se limitou aos negócios. Em 2010 criou também o grupo de Facebook “Bairro da Medrosa”, que hoje reúne cerca de 1800 membros. Madalena nasceu na Parede e mudou-se para o bairro, em São Julião da Barra, quando tinha três anos, precisamente em 1971, ano em que o conjunto habitacional foi inaugurado.
“Foi criado com o intuito de reunir todas as pessoas que lá viveram, ou ainda vivem, e todas as que se relacionam com moradores”, contou à NiO em 2021, durante as comemorações dos 50 anos do bairro. Guarda dessa época memórias felizes. “Éramos muitos e todos brincávamos na rua. Éramos uma família enorme, organizávamos festas de santos populares, corridas de atletismo e jogos de futebol”, recordou. Viveu ali até casar, aos 33 anos, mudando-se depois para Paço de Arcos, onde continua a viver e onde criou o filho, Diogo, hoje com 24 anos e formado em Engenharia Informática.
Atualmente divide os dias entre a produção das peças, a gestão das redes sociais das duas marcas, o contacto com clientes e o apoio à mãe, já idosa. É, no entanto, nas horas em que cria as suas peças que diz sentir-se mais realizada. Descreve esse momento como um processo introspetivo, quase meditativo.
O sonho passa agora por abrir um espaço próprio, partilhado com duas ou três marcas complementares, onde possa juntar loja e ateliê. A inspiração vem de pequenas lojas instaladas em edifícios antigos de centros históricos que foi descobrindo ao longo das viagens.
Carregue na galeria para ver algumas peças das Madbi e Bagattelas.








