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Há cada vez mais homens a costurar a própria roupa (e George Clooney é um deles)

A expressão inglesa "sew bros" foi cunhada pela revista "Esquire" para se referir a esta tendência crescente na pandemia.
Até já reparou um vestido da mulher.

Há uma nova tribo urbana em ascendência que surgiu espontaneamente no meio da pandemia. O seu nome — “sew bros” — custa a pronunciar, mas se calhar vale a pena perder algum tempo a enrolar as palavras na língua porque, segundo o jornal britânico “The Guardian”, eles não vão a lado nenhum.

Traduzido para português ficamos com qualquer coisa como “manos da costura”, o que não é muito melhor, mas não desista já desta ideia porque tem potencial para se tornar na próxima grande tendência do confinamento. Pelo menos, o foi o suficiente para conquistar George Clooney.

O pai de gémeos de três anos já tinha confessado em dezembro que cortava o seu próprio cabelo em casa, mas agora adiantou à revista “AARP” que também tem skills com as linhas e agulhas na mão. “Eu costuro muitas das roupas dos miúdos e o vestido da minha mulher que se rasgou algumas vezes. Fui solteiro durante muito tempo e não tinha dinheiro, precisei de aprender a reparar as coisas.”

A pandemia de Covid-19 foi um empurrão para a ascendência de uma série de hobbies domésticos. A cadeia de centros comerciais John Lewis revelou ao “The Guardian” que registou uma explosão de 127 por cento nas vendas de máquinas de costura. Ao mesmo jornal, Michelle Zimmer, representante de uma loja de tecidos na zona de Sussex, no Reino Unido, que viu as vendas a aumentar, disse: “Sinto-me incrivelmente sortuda de ter um negócio que floresceu durante a pandemia.”

A costura sempre foi vista como uma atividade tipicamente feminina, um estereótipo que, afirma Priya Elan, do “The Guardian”, não é bom para ninguém. “O que é particularmente interessante é o crescimento de jovens artesãos do sexo masculino na nossa comunidade”, acrescentou Edward Griffith, diretor da comunidade online LoveCrafts. “A maior parte da nossa comunidade masculina tem idades entre 25 e 34, quando comparada com a audiência feminina, que está principalmente entre os 35 e os 44 anos”. Griffith revelou ainda que cerca de um terço começou a costurar, bordar ou tricotar durante a pandemia.

Já pelas redes sociais, o barómetro das tendências do século XXI, a costura começa cada vez mais a posicionar-se como um ato político. O número de partilhas de roupas remendadas está a crescer, mas também de peças feitas em casa, em nome da slow fashion. São os “craftivists”, um grupo de pessoas que usa os bordados para protestar. No entanto, a grande maioria continua a pertencer ao sexo feminino.

Já os sew bros — uma expressão cunhada pela revista “Esquire” — dizem que continuam a enfrentar alguns olhares desconfiados quando revelam os seus hobbies. “Quando conto às pessoas, elas podem rir-se por acharem que estou a brincar, ou ficam bastante surpreendidas com o facto de eu ser um homem que costura”, revelou Thabo Sabao, de 22 anos, um estudante de programação que exibe a sua coleção impressionante de tops e casacos feitos à mão no Instagram.

Esta mesma atitude sobre os papéis de género foi ecoada por Peter Cant, um concorrente no concurso de costura britânico “The Great British Sewing Bee”, que já notou nas reações das pessoas a crença de que esta atividade é mais adequada ao sexo feminino. “A comunidade de costureiros pode comportar-se de forma estranha com os homens, no sentido em que os alfaiates são muito respeitados e quase se espera que sejam homens, mas os homens que costuram em casa são vistos como femininos”, disse, acrescentando: “[Mas] é o que produzimos que as pessoas veem. Pelo menos, assim o espero.”

Apesar dos preconceitos, os manos da costura continuam a ser cada vez mais pelo mundo fora. Segundo Sabao, o hobby surgiu como algo para o ajudar a desviar o olhar do ecrã do computador. Encontrou uma máquina de costura e acabou por, ironicamente, aprender tudo online. “O YouTube ajudou tremendamente. Quase tudo o que sei, aprendi no YouTube”. Entre as suas criações, destaca o seu primeiro par de calças, feito a partir de um saco de ginástica da Adidas. “Deram-se uma sensação de concretização porque fui eu que desenhei o padrão e levou algumas tentativas, mas consegui terminar e resultaram bem”, explica.

Ainda assim, Sabao reforça que os manos da costura continuam a ser um nicho e que são as mulheres quem domina esta arte. “Não penso que seja algo que muitos homens tenham nos seus radares. Acho que, quando somos miúdos, as mães e avós tendem mais a ensinar as raparigas a costurar.”

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