“Estava tudo escuro e enquanto sustinha a respiração, nadava pela cave à procura da porta de saída, para conseguir fugir e sobreviver, ao mesmo tempo que tentava salvar tudo o que tinha”, descreve José António Brito sobre um dos dias mais negros da história recente de Oeiras, marcado pelas cheias de 1967, que destruíram as zonas baixas do município e causaram mais de 500 mortes. O oeirense sobreviveu e conseguiu salvar, além da sua própria vida, a casa onde já trabalhava na altura e onde continua a trabalhar hoje, ao fim de seis décadas. Uma longevidade que faz dele o estofador mais antigo de Caxias e “talvez de Oeiras”, graceja.
Em 1964, tinha José Brito 21 anos, deixou a Covilhã e veio para Lisboa para ir para a tropa. Nessa altura já trabalhava numa oficina de estofadores. “Comecei a trabalhar aos 10 anos e meio com estofadores da minha terra até que me juntei à tropa e vim para Lisboa”, conta o oeirense, hoje com 83 anos.
Depois de contrariar o sonho do avô, que queria vê-lo padre, José começou a aceitar trabalhos como estofador em Caxias, que conciliava com o serviço militar. “Pedi ao meu capitão um mês de licença para trabalhar numa oficina que encontrei em Caxias, ele deixou-me fazer só uma semana. Mas aos 22 anos deixei a tropa e decidi ficar a trabalhar por lá”, recorda.
Poucos meses depois de se instalar de vez na cave da Rua São João de Deus, percebeu que queria ter uma oficina própria. Tinha 23 anos quando decidiu falar com o senhorio do prédio, depois de reparar que a loja de comércio, nas arcadas, e a cave ao lado estavam vazias.
“O espaço divide-se em dois lotes na cave. De um lado estava vago, no outro estavam 366 mil garrafas de vidro da Fanta empilhadas. Era lá que guardavam o material. Ainda hoje tenho a marca delas no chão depois das cheias”, conta.
As cheias de 1967 marcaram para sempre o concelho de Oeiras. Destruíram casas, lojas e património, provocaram mortos e deixaram dezenas de feridos. José António Brito lembra-se desse dia “como se tivesse sido há dias”. Já passavam das 23 horas quando decidiu ir até à loja preparar uma encomenda que tinha ficado pendente.
“Uma cliente ligou-me nesse dia a dizer que só ia levantar o sofá no dia seguinte porque estava a chover muito. Decidi então ir à loja, em cima, preparar tudo. De repente, tinha água no chão com 60 centímetros de altura. Foi aí que percebi que a cave estava totalmente alagada”, recorda.
Na altura, existia um muro que acompanhava a Ribeira de Barcarena. Com a força da água, acabou por ceder e provocou inundações severas na zona baixa de Caxias. “Decidi descer à cave para tentar abrir a porta e deixar a água escoar.” No escuro, e com uma boa dose de sorte, conseguiu encontrar a saída. Ficou agarrado a árvores na mesma rua até ser socorrido por moradores, depois de a chuva abrandar.

A casa foi recuperada “com relativa facilidade”. Instalou eletricidade e água canalizada e chegou a trabalhar com seis costureiras em simultâneo, uma delas a própria mulher. “Agora estou apenas eu e a minha filha, Cristina Brito. Com 56 anos é a única costureira de decoração em Lisboa”, conta. Hoje, a oficina é uma das poucas na cidade dedicadas exclusivamente a estofos e decoração, um percurso que já levou José a trabalhar em vários locais fora do País.
“Tenho um telefone antigo do tempo das páginas amarelas. Quando toca, já sei que é um cliente de vela acessa, os que tenho há mais de 50 anos, ou então é do estrangeiro. Já fui a Genebra ou a Lausanne em trabalho, visitei palácios e museus”, conta.
Entre os trabalhos que guarda com mais carinho, os hotéis ocupam um lugar especial. “O meu primeiro foi a renovação do Hotel Embaixador, em Lisboa, em 2012. Fiz o Cascais Atrium, em 2023, foram 144 apartamentos de T0 a T6. Também o Palácio de São Bento foi todo restaurado aqui.”
O trabalho passa tanto por restauros como por criar peças de raiz. Cortinados, poltronas ou cadeiras simples para quartos fazem parte do seu dia a dia. “Também o Palácio de São Bento foi todo restaurado aqui. Estiveram 16 anos à espera que tivéssemos livres. Foi um trabalho especial, porque além do restauro fizemos 38 poltronas em veludo e madeira. Estamos a falar de peças que estavam nas cortes de 1834”, explica.
Trabalho não falta numa oficina que é, hoje, uma raridade na região. “Tenho encomendas marcadas até ao fim de julho e os clientes esperam por nós. Fiz um trabalho para a Pensilvânia [nos EUA], umas orelhas de pele, em que o senhor esteve dois anos à espera.” Ainda assim, a loja não vive apenas de “grandes encomendas”. Há também pequenos restauros para clientes habituais e peças de decoração feitas do zero.
José António Brito trabalha há 72 anos como estofador e teve de formar muitos aprendizes ao longo do percurso. “Hoje em dia não há quem saiba fazer um sofá de molas”, desabafa. O futuro preocupa-o. “Se a minha filha não ficar com isto, a tradição perde-se. Tenho quatro bisnetos e sei que nem os meus netos vão ficar aqui, não só porque não sabem como também já têm outros cursos e não querem.”
Aos 83 anos, garante que continua por prazer. Diz que a oficina é o seu ginásio, enquanto renova uma peça do século XVIII. “Enquanto conseguir, vou trabalhar.”

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