O verão traz consigo uma sensação de renovação. Entre a mudança de estação, os preparativos para as férias e a vontade de aproveitar os dias mais longos, muitas pessoas sentem um impulso natural para reorganizar a casa e simplificar rotinas. Mas por onde começar quando a desordem parece ter tomado conta dos armários, gavetas e arrecadações?
Para Cláudia Ganhão, especialista em Organização Pessoal Minimalista e uma das pioneiras do movimento do minimalismo em Portugal, esta é precisamente uma das melhores épocas do ano para fazer uma grande sessão de “destralhar”. A autora do livro “O Teu Minimalismo” defende que organizar a casa não é apenas uma questão estética ou prática, mas também uma forma de reduzir o stress e criar mais espaço para aquilo que realmente importa.
Ao longo dos últimos anos, através da sua Academia de Mulheres em Evolução e dos programas de mentoria que já impactaram milhares de mulheres, tem ajudado a promover mudanças sustentáveis através da organização, do autoconhecimento e da criação de hábitos mais conscientes. A sua abordagem passa por simplificar sem radicalismos e encontrar soluções que se adaptem à realidade de cada pessoa e família.
Nesta entrevista à NiT, Cláudia Ganhão partilha estratégias simples para preparar a casa para o verão, revela quais as áreas que mais beneficiam de uma limpeza profunda nesta altura do ano e explica como o ato de “destralhar” pode trazer benefícios imediatos para o bem-estar, a produtividade e a qualidade de vida.
A chegada do verão é uma boa altura para fazer uma grande organização da casa? Porquê?
Sim, e há razões muito práticas para isso. O verão traz uma mudança de ritmo, as férias aproximam-se, os dias são mais longos e existe uma energia natural de renovação que nos torna mais disponíveis para este tipo de tarefa. Além disso, a mudança de estação obriga-nos a mexer em zonas da casa que normalmente ignoramos: os armários de roupa, as prateleiras com cobertores, os cantos com equipamento de exterior. É o momento ideal para avaliar o que realmente utilizámos nos últimos meses e o que ficou parado. Organizar a casa antes das férias tem também um efeito psicológico muito positivo: partimos mais descansados e regressamos a um espaço que nos acolhe, em vez de encontrar uma casa que nos oprime logo no primeiro dia.
Se tivesse de elaborar uma lista de prioridades, quais seriam as primeiras coisas que recomendaria “destralhar” antes do verão?
A minha lista começa sempre pelo vestuário, é a categoria que mais espaço ocupa e onde a acumulação acontece de forma quase invisível. De seguida, recomendo os produtos de higiene e saúde: cremes expirados, medicamentos fora do prazo, produtos que compramos e nunca usámos. Depois, a área da cozinha: especiarias antigas, alimentos em stock que já não fazem sentido guardar, gadgets que prometiam facilitar a vida e nunca saíram da gaveta. Por fim, o espaço de armazenamento: arrecadação, garagem ou hall de entrada. São zonas que acumulam objetos em trânsito que, na prática, ficam anos parados. Quem “destralhar” estas quatro áreas já vai sentir uma diferença enorme.
A roupa é, como disse, o maior desafio. Como podemos decidir o que manter e o que deixar ir quando fazemos a mudança de estação?
A pergunta certa não é “vou usar isto algum dia?” Essa pergunta quase sempre responde “sim” e não nos ajuda. A pergunta certa é: “usei isto na última estação?” Se a resposta for não, o próximo passo é perceber porquê. Não me serviu bem? Não me senti confortável? Não combinou com nada? Essas razões costumam manter-se. Outra abordagem que funciona muito bem é imaginar que está a comprar a peça hoje, com o dinheiro que tem agora, se a resposta for “não a compraria”, dificilmente vai usá-la. Para peças com valor sentimental, recomendo criar uma caixa de memória pequena e limitada: tudo o que não cabe nessa caixa tem de sair.
Que objetos ou categorias costumam acumular-se mais nesta época do ano sem que nos apercebamos?
Os cabos e carregadores são quase universais, toda a gente tem uma gaveta cheia de cabos que não sabe a que equipamento pertencem. Os sacos de plástico e de pano são outra categoria silenciosa: multiplicam-se sem que ninguém os traga conscientemente. Na época do verão, acrescento os artigos de praia e piscina que sobreviveram de anos anteriores: boias furadas, toalhas desgastadas, protetor solar fora do prazo. E, claro, as compras por impulso da época de saldos: peças de roupa, objetos de decoração, artigos de cozinha que pareciam uma boa ideia no momento e que nunca chegaram a ser usados.
Há alguma divisão da casa que mereça uma atenção especial antes do verão começar?
A casa de banho é muitas vezes esquecida, mas merece atenção especial. É onde guardamos produtos com data de validade: cremes solares, medicamentos, cosméticos, e onde a acumulação passa despercebida porque os objetos são pequenos. Com o calor, a higiene e os cuidados de pele tornam-se mais frequentes, por isso faz todo o sentido ter esse espaço organizado e com apenas o que é atual e necessário. O quarto também merece destaque: é onde passamos mais horas e onde a desordem afeta diretamente a qualidade do sono e do descanso. Um quarto arrumado antes das férias é uma forma de garantir que regressamos a um ambiente que convida ao descanso.

Muitas pessoas guardam objetos para o caso de serem precisos um dia. Como combater essa tendência?
Esta é uma das maiores armadilhas da organização. O “e se precisar?” tem uma resposta honesta que raramente fazemos. Na maioria dos casos, se precisarmos, conseguimos arranjar de outra forma: emprestado, comprado de novo, substituído por algo melhor. O que ajuda muito é perceber o custo real de guardar esse objeto: cada coisa que ficamos a guardar ocupa espaço físico, mental e emocional. Uma técnica prática é a “caixa de dúvidas”: em vez de decidir na hora, coloca-se o objeto numa caixa com uma data marcada. Se ao fim de três a seis meses não foi procurado, sai de casa sem culpa. É uma forma de dar à pessoa o tempo de que precisa, sem deixar que a dúvida se torne desculpa para ficar com tudo.
O que devemos fazer aos objetos que já não usamos mas que ainda estão em bom estado?
Dar uma segunda vida a esses objetos é sempre a melhor opção: para o ambiente e para a nossa consciência, que fica muito mais tranquila do que quando simplesmente deitamos algo fora. As lojas de segunda mão e os bancos de roupa são destinos excelentes para vestuário. Plataformas de venda online funcionam bem para eletrodomésticos, mobiliário e livros. Para brinquedos e artigos infantis, hospitais pediátricos, escolas, jardins de infância e associações de apoio a famílias costumam receber com gratidão.
O importante é não deixar que a logística de destinar os objetos se torne uma desculpa para não “destralhar”, por isso recomendo definir sempre um dia concreto para fazer as entregas, logo que os objetos estejam separados.
Como envolver toda a família num processo de “destralhar” sem criar conflitos ou resistência?
A chave está em respeitar a autonomia de cada pessoa. Ninguém deve decidir pelo outro o que é descartável – isso gera resistência e conflito. O que funciona é criar um processo claro e partilhado: cada membro da família é responsável pelo seu espaço e pelas suas coisas. Com crianças, transformar o processo numa atividade positiva ajuda muito: escolher juntos os brinquedos para oferecer a outras crianças, por exemplo, desenvolve a generosidade e torna a tarefa menos pesada. Com adolescentes e adultos, a conversa honesta sobre os benefícios: mais espaço, mais clareza, menos tempo a procurar coisas, costuma ser mais eficaz do que impor regras. E celebrar o resultado juntos, mesmo que seja com um jantar especial, reforça a experiência positiva.
Para quem se sente sobrecarregado só de pensar em organizar a casa, por onde aconselha começar?
Pelo mais pequeno e mais isolado. Não pela casa toda, não pelo armário maior, mas pela gaveta da mesa de cabeceira, pela prateleira de baixo do armário da casa de banho, por uma única caixa. A sensação de sobrecarga vem da dimensão que imaginamos para a tarefa. Quando começamos por algo pequeno e terminamos, criamos um momento de sucesso real que nos dá energia para continuar. Outra abordagem que recomendo é definir sessões curtas com tempo fixo: vinte ou trinta minutos por dia, com um temporizador. Não é necessário fazer tudo num único fim de semana épico, e essa pressão é frequentemente o que impede as pessoas de começar. Pequenos passos consistentes chegam sempre mais longe do que grandes planos que nunca arrancam.
Que benefícios imediatos podemos sentir depois de fazer uma sessão de “destralhar” antes das férias de verão?
O mais imediato é a leveza, não só física, mas mental. Há uma correlação direta entre a desordem visual no nosso ambiente e os níveis de stress e ansiedade. Quando o espaço está mais limpo, a mente fica literalmente mais tranquila. Depois das férias, o regresso a casa é completamente diferente: em vez de encontrar um espaço que nos oprime e que exige trabalho imediato, encontramos um ambiente que nos acolhe. Há também um benefício muito prático: sabemos onde estão as coisas. O tempo que poupamos a procurar objetos é surpreendente quando fazemos as contas. E, finalmente, existe uma dimensão de autoconhecimento: “destralhar” obriga-nos a perceber o que realmente valorizamos, o que queremos para a nossa vida e que tipo de casa, no fundo, queremos habitar.








