comida
ROCKWATTLET'S ROCK

comida

Viveu uma infância difícil. Hoje é dono de um dos mais populares restaurantes de Oeiras

Abel Amorim deixo o Minho para trabalhar nas obras em Oeiras. Tinha 12 anos. Cresceu, trabalhou, lutou e hoje é a cara do famoso O Pombalino.

Com 12 anos, vivia numa barraca forrada a papelão. Já trabalhava, a troco de um salário mísero de 90 escudos. “Foram os anos mais duros da minha vida. Passei muito frio e alguma fome”, recorda Abel Amorim, hoje com 65 anos. Hoje, o cenário é radicalmente diferente. O oeirense, natural do Minho, é hoje a cara d’O Pombalino, um dos mais famosos restaurantes do concelho e que celebra em maio 36 anos de existência.

A vida do proprietário é uma de enorme superação. “Sou filho de mãe solteira, que me abandonou à nascença, aos cuidados dos meus avós maternos. O meu avô e uma tia são as minhas únicas referências familiares”, confessa, enquanto recorda a infância numa pequena aldeia do concelho de Arcos de Valdevez. “Não tínhamos televisão, nem rádio, não havia luz nem água. Comíamos aquilo que a terra dava, em vez de bifes, comia-se sopa e batata. Era assim que se vivia na província antes do 25 de Abril.”

Foi graças a um tio que, em 1972, acabou por fazer a viagem até Oeiras, para trabalhar na construção civil. As dificuldades mantiveram-se. “Fiquei a morar na tal barraca na Avenida Copacabana, que só tinha colchões, era só mesmo para dormir”, conta. A higiene pessoal era feita nas casas de banho do jardim de Paço de Arcos, onde pagava 25 tostões para ter direito a um banho por semana e um sabonete.

Assim viveu, à base de uma dieta de “batatas com ovo e batatas com atum”, mas havia momentos de escape. “Tínhamos um colega, o Augusto, que levava a concertina para os intervalos do trabalho. Quando ele tocava parecia que ficávamos aliviados durante uns minutos e por instantes parecia que nada importava”, recorda.

Certo dia, a chegar à obra, foi mandado embora pelo patrão. “Quero tudo a ir para casa, há uma guerra em Portugal. Ninguém trabalha”, avisou-os, perante a preocupação de Abel. “Não percebi a dimensão da situação e fiquei preocupado, porque os 90 escudos que me davam era a minha única subsistência.”

Com 15 anos, tudo mudou. As obras ficaram para trás e dedicou-se a um novo trabalho num restaurante local, o Patrício. “O dono do espaço precisava de alguém que carregasse frigoríficos, lavasse a louça e tratasse do armazém. Era amigo do meu patrão da obra que, por saber de todas as minhas dificuldades, recomendou-me”, conta. Foi ali que aprendeu as primeiras lições sobre o mundo da restauração.

“Costumo dizer que aos 15 anos me saiu o Euromilhões, sem sequer ter jogado. Nessa altura estava a viver numa gruta, que ficava por trás do cemitério de Oeiras. A barraca tinha sido destruída e foi a única solução que tive. Era uma caverna com um barrote de madeira a fazer de porta, no inverno tinha de dormir todo coberto por causa do frio e porque com a humidade durante a noite caiam pedras na minha cabeça”, recorda.

Começou a trabalhar no negócio na Rua Mestre de Avis, uma marisqueira conceituada no concelho. “Os clientes tinham muito dinheiro, era uma casa de renome, talvez a melhor da zona na altura”, recorda. À frente do espaço estava António Patrício, o novo patrão que acabou por se revelar “muito mais do que isso”. “Costumo dizer que ele me adotou, foi muito meu amigo. Arranjou-me um quarto para ficar, roupas, que na altura andava com roupas com buracos sujas de cimento.”

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Isaltino Morais (@isaltinomorais.oficial)

Nas folgas, era quase sempre convidado da família Patrício. E foi o patrão quem o levou pela primeira vez à praia, no verão de 1976. Foi também o responsável por incutir em Abel Amorim outra das suas grandes paixões, o Benfica. “Fui pela primeira vez ao futebol ao Estádio da Luz, num jogo da Liga dos Campeões entre o Benfica e o Bayern de Munique.”

Foram anos de recompensa merecida, à medida que foi estabilizando a vida. Dos anos no Patrício, só guarda boas recordações. “Aprendi muito do que sei hoje de hotelaria por lá, ele ensinava-me tudo e estava atento aos detalhes para me corrigir e tornar-me um bom profissional, sempre com sensibilidade e empatia.”

Chegaria a altura de se aventurar noutras casas. Tinha 20 anos quando foi para Lisboa, trabalhar na Cervejaria Trevo, ainda hoje a funcionar no Largo de Camões. Por lá ficou mais de oito anos, como empregado de mesa, até se “fartar” do ambiente dos anos 80, com “muito álcool e droga”, a “vender e consumir”. “Não gostava disso e comecei a fazer frente, mas depois surgiram as ameaças e as chatices então decidi vir-me embora.” Foi o primeiro passo para criar o grande projeto da sua vida.

Nascia o Pombalino

Em 1990 decidiu aventurar-se num projeto próprio, com a ajuda de dois amigos ligados à restauração, mas que hoje já abandonaram o Pombalino. “No espaço funcionava uma casa de pasto conhecida pela Taberna do Florindo. Decidimos pegar naquilo, fizemos obras e mudamos o interior, que era mais pequeno. Decidir o nome foi das coisas mais fáceis, porque ficava na zona pombalina do concelho, então foi quase intuitivo e pegou bem.”

A fama local de Abel deu força ao arranque. “Conheciam-me por ter trabalhado no Patrício. Tive muita procura por isso também, porque nessa altura o restaurante já tinha fechado. Ainda hoje temos clientes dessa época, há mais de meio século”, acrescenta.

Entre os clientes habituais, o Pombalino foi recebendo ao longo do tempo personalidades bem conhecidas, espalhadas pelas mais de sete dezenas de fotografias que decoram a sala principal. “Foi o meu amigo, maestro César Batalha, que na altura, ao ver tanta gente famosa a passar por lá, incentivou-me a tirar uma fotografia com cada um deles e colocar na parede. Tornou-se rapidamente um símbolo do espaço.”

Entre as estrelas estão os seus ídolos benfiquistas, como Chalana e Mário Wilson, mas também artistas como Paulo de Carvalho, Rui Veloso, entre muitos outros. Mas para Abel, a caderneta não está completa. “Tenho pena de não ter tirado com Ruy de Carvalho ou o José Fialho Gouveia. Outra oportunidade que perdi, porque nos distraímos com horas foi com a Fafá de Belém, que veio cá jantar e convidou-me a sentar-me à mesa com ela, bebemos vinho branco do Douro e fumamos charutos a noite toda”, relembra entre risos.

Por ali, a comida é 100 por cento portuguesa, numa carta onde brilham especialidades como a açorda de garoupa com gambas (34€/2 pessoas), o abrito assado no forno (38€/2 pessoas), o cozido à portuguesa (32€/2 pessoas e os filetes de linguado com açorda (34€/2 pessoas).

O verdadeiro sucesso da ementa é, contudo, um prato que foi apenas apresentado há dois anos, depois de uma aventura no mercado. Abel deparou-se com o bivalve e decidiu comprar meio quilo, que depois entregou à cozinheira. Queriam um prato diferente para agitar o menu. “O famoso arroz de lingueirão (34€/2 pessoas) hoje não pode sair da carta, mas custou muito a ser aceite pelos clientes habituais”, recorda.

O truque? Muita experiência, assume Abel. “Sempre que algum cliente pedia o arroz, oferecia um bocado aos clientes mais antigos para provarem. Isso começou a resultar”, conta, embora a explosão nos pedidos seja, em parte, culpa do autarca local, Isaltino Morais, que num dos seus vídeos garantiu que se trata “do melhor arroz de lingueirão de Oeiras”.

Desde então há clientes que vêm de vários pontos do País para o provar. “O segredo é por ser feito de forma tradicional, é como fazer um arroz de garoupa ou de gambas, a textura é igual. Demora 30 minutos”, revela Abel.

O Pombalino conta com dois andares e capacidade para 70 pessoas e, além das fotografias, conta com alguns toques de decoração benfiquista. Abel serve adeptos de qualquer clube, mas não hesita no momento de nomear a sala. “Para mim é o ninho da águia. É uma homenagem [ao Benfica]”, assegura.

Nas paredes há cachecóis e bolas autografadas e até a letra do hino oficial do clube impressa, perto da camisola assinada pelo atual capitão, Nicolás Otamendi. “Os meus filhos são do Benfica, assim como os meus netos, hoje posso dizer com orgulho que tenho uma família bonita. E do Benfica, claro.”

Carregue na galeria para ver fotografias do espaço e alguns pratos. 

ARTIGOS RECOMENDADOS