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Um dos vinhos mais exclusivos do mundo custa 5750€ num supermercado em Portugal

É considerado por muitos "o único a provar antes de morrer". Uma garrafa de 1982 foi leiloada por 52 mil euros.
É daqueles rótulos especiais.

Cristiano Ronaldo, Oprah, Beyoncé, Pink são apenas alguns dos nomes da longa lista de celebridades que já reconheceram a preferência por um reputado vinho francês — mas pouco conhecido entre os comuns mortais.

O Château Petrus é um dos tintos mais exclusivos do mundo, mas também se vende num supermercado em Portugal. Está disponível no Auchan por 5.750€. Afinal, o que este rótulo tem de especial?

Produzido em Pomerol, uma sub-região de Bordéus (em França), uma propriedade com apenas 11,5 hectares, o lendário Petrus é considerado uma obra-prima da vitivinicultura. Elaborado quase exclusivamente com uvas da casta Merlot, apresenta taninos sedosos e um bouquet complexo, apresenta sabores intensos a frutas e especiarias e um teor alcoólico de 13,5 por cento.

Presença garantida nas listas dos vinhos mais caros do mundo, é também um dos mais cobiçados. “Para a maioria dos amantes de tinto, o Petrus é o auge, o melhor dos melhores. É muito procurado em leilão devido à sua raridade, sendo considerado por muitos, o único a provar antes de morrer”, explica Alexandria Cubbage, vice-presidente do departamento de vinhos da leiloeira Sotheby’s. 

 Algumas garrafas foram enviadas para Estação Espacial, onde estagiaram durante 400 dias, enquanto outras continuam a ser cobiçadas em terra por colecionadores.

A história do Petrus

A lenda de um dos tintos mais exclusivos do mundo começou a ser escrita no século XIX, quando a propriedade francesa onde é produzido era conhecida como “La Fleur Petrus”. Em 1879 ganhou uma medalha de ouro num concurso francês — o primeiro selo de qualidade.

A propriedade manteve-se na família Arnaud até 1925, ano em que Edmonde Loubat, decidiu comprá-la. Na altura, a empresária geria o reputado Hotel Restaurant Loubat, mas estava convicta que aqueles hectares eram “dignos de interesse”. Durante anos o potencial das vinhas manteve-se quase desconhecido. A referência ali produzida apenas se tornou sinónimo de qualidade e excelência após a morte da proprietária e posterior aquisição da propriedade por Jean-Pierre Moueix, em 1945.

O nome foi dado já pelos novos proprietários, em homenagem às terras onde é produzido. Para o rótulo decidiram seguir a mesma linha e desenharam São Pedro — Petrus em latim — a segurar as chaves do Vaticano.

Quando, em 1956, fortes geadas atingiram os vinhedos de Pomerol, os proprietários do Château Petrus tomaram uma decisão diferente da tomada pelos vizinhos. Em vez de optarem pelo replantio, decidiram apostar na regeneração das videiras fazendo-lhes cortes profundos. As plantas acabaram por recuperar de forma impressionante, renascendo mais fortes do que nunca.

Desde aí que (quase) todas colheitas da pequena vinha têm sido ótimas. Exceto 1991, o ano fatídico em que a qualidade das uvas ficou muito aquém das expectativas. Os produtores decidiram mesmo saltar essa colheita, para que a qualidade e o reconhecimento do Petrus não fosse posta em causa. Esta é a razão pela qual não se encontram garrafas datadas desse ano.

Os rótulos deste vinho francês podem mesmo atingir os milhares de euros em leilões. Por exemplo, numa licitação que teve lugar em Londres em 2019, uma garrafa da colheita de 1982 foi comprada por 52 mil euros. As referências de 1947, 1950, 1961 e 1990 são lendárias e praticamente impossíveis de encontrar no mercado. Sempre que são postas à venda podem superar facilmente as centenas de milhares de euros.

Afinal, o que torna este vinho tão especial?

As vinhas do Château Petrus estendem-se por 11,5 hectares, num solo único formado por três camadas a 40 metros do nível do mar, conhecido como “ilha de argila Petrus”. A primeira camada é de cascalho, a segunda é de uma argila densa e muito rica em matéria orgânica. O grande segredo está na terceira sobreposição, feita de argila azul. Esta apresenta uma grande concentração de óxido de ferro que endurece o solo e impede que as raízes fiquem muito profundas. Os frutos acabam por ficar mais concentrados e retêm muito mais humidade.

Tudo ali é feito com cuidado e dedicação. A colheita das uvas Merlot é feita à moda antiga: com as mãos e durante o período da tarde para proteger os bagos da humidade da manhã. Depois da fase da fermentação em cubas de cimento, passa para o estágio em barricas novas de carvalho francês por um período que varia entre 22 e 28 meses.

Apesar das técnicas de vinificação serem muito simples, há um método especial usada no fabrico deste vinho: éclaircissage, que consiste em arrancar algumas videiras de forma estratégica para garantir que as restantes fiquem mais espaçadas e consigam absorver melhor os nutrientes. Isto faz com que o sabor fique mais concentrado.

O processo leva o seu tempo, por isso, não produzem mais do que 32 mil garrafas por ano. Isto significa que a procura é maior do que a produção, desequilíbrio que inflaciona automaticamente os preços.

O Petrus é a estrela de leilões de vinhos um pouco por todo o mundo e é o mais procurado por investidores. O retorno é de tal forma seguro que 99 por cento da produção é vendida antes de ser produzida. A diminuta percentagem de garrafas que não chegam ao mercado são acrescentadas ao acervo da família de produtores. Uma garrafa de uma boa colheita, bem conservada, é sinónimo de um investimento seguro.

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