Uma porta antiga, toda pintada de branco, serve de quadro à entrada da nova tasca de Oeiras. O nome põe quem passa em alerta: Tasca dos Maricas. Uma escolha pouco óbvia e potencialmente arriscada. Os responsáveis espaço que abriu a 12 de agosto em Paço de Arcos anteciparam a pergunta que todos fazem: porquê este nome?
“O que é um maricas?”, lê-se à entrada, num rabisco a giz. “Um maricas somos nós: trabalhamos no duro, somos machos e não temos vergonha de chorar quando Deus fala connosco.” Foi esta a resposta que Maiara Silva Neto e Leonardo Silva, os proprietários, preferiram dar.
O casal brasileiro trocou as profissões que tinha até então por um negócio próprio, onde serve petiscos portugueses numa grande esplanada coberta perto do Jardim de Paço de Arcos e da Praia Velha. Maiara tem 35 anos, Leonardo, ou Léo, 44. Estão juntos há 16 anos, têm três filhos e são ambos naturais de Minas Gerais, no Brasil. Vivem em Portugal há quase 20 anos e atualmente moram em Paço de Arcos. Na tasca, dividem o contacto direto com os clientes, da entrada à mesa, enquanto a cozinha fica a cargo de uma equipa de cozinheiros que Maiara está agora a formar e a organizar.
Todo o espaço funciona numa “grande esplanada coberta”, protegida por uma lona bege em forma de vela. Quando chegar o inverno, aquecedores e cobertores vão ajudar nos dias mais frios. Ao todo, cabem 60 pessoas: 39 sentadas dentro da tenda e as restantes nos cinco barris colocados no exterior, cada um com quatro bancos à volta.
Vários negócios passaram pelo espaço, sendo que o último apostava em pratos da gastronomia brasileira. Maiara quis mudar para um perfil mais nacional, que foi bem recebido pela vizinhança. Desde a abertura, ainda não fecharam um único dia. “Não paramos até hoje, graças a Deus”, diz.
O negócio pertence apenas a Maiara e Léo, mas o casal conta com a assessoria de Sara e Simão Dutra Lima, donos do famoso Cabra Macho, em Sintra. Antes de abrir este restaurante, em março de 2023, Simão já tinha outros dois espaços, a Picanharia e o Gringo. O Cabra Macho, inspirado nas tascas tradicionais portuguesas, é gerido com a mulher Sarah e o irmão Duarte.
O nome do restaurante de Sintra nasceu de uma expressão brasileira que Simão ouviu no dia do próprio casamento, na Bahia. Ficou-lhe na cabeça até acabar por dar nome ao negócio. Foi precisamente através de Sara e Simão que a história da Tasca dos Maricas começou a ganhar forma. Os dois casais conheceram-se na igreja que frenquentam em Caxias. Segundo a história afixada dentro da tasca, foi ali que Sara e Simão começaram a reparar em Léo e Maiara, embora por motivos diferentes.
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Léo, que trabalhava então na pintura depois de ter sido pizzaiolo, ajudava em tudo o que fosse preciso sem se queixar. Maiara, que trabalhava como manicure, chamava a atenção pela forma como recebia as pessoas na igreja, sempre com um sorriso. Durante um culto, Simão virou-se para Léo e perguntou-lhe se tinha fé para assinar um cheque de um negócio que ainda nem existia. Léo não perguntou o valor. Pediu apenas uma caneta e assinou.
“Começamos a orar, a apresentar ao Senhor, para ver se era Dele ou não”, conta Maiara. Ao fim de três ou quatro meses “as portas foram-se abrindo”. Léo chegou a ver um espaço em Alfama antes de encontrar, num site de arrendamento de imóveis, o local em Paço de Arcos. O preço da negociação com o antigo proprietário acabou por baixar de forma inesperada e seguiram-se as obras até à abertura.
O nome da tasca apareceu por outro caminho. Nasceu do contraste entre a dureza de Léo no trabalho físico e a facilidade com que se emociona. Os proprietários garantem que “a intenção não é ofender ninguém”. Ainda assim, admitem que já receberam alguns comentários críticos nas redes sociais e dizem que estão, por enquanto, a tentar que o Google aceite o nome, um processo que consideram estar a demorar mais do que esperavam.
Na tasca, porém, dizem que a reação tem sido positiva. “As pessoas estão a adorar. Vêm, brincam, tiram fotografias, publicam e marcam-nos.”
À mesa, a aposta é nos petiscos portugueses e há um prato que se destaca logo pelo nome: “Ossos à Maricas”. Trata-se de espinhaça de porco com batata frita, para comer à mão, sem talheres. Custa entre 9,50€ e 11,50€, consoante o tamanho da dose.
Na carta encontram-se ainda Camarão à Guilho (8,50€), Mexilhão Bulhão Pato (11,60€), Molhadinho (a partir de 8,50€) e Pica Pau Maricão (9,80€), além de sandes, sopas e sobremesas caseiras.
Para beber, a cerveja de pressão custa 1,47€ por 29 cl ou 2,62€ na caneca. O vinho verde não filtrado tem os mesmos preços e há ainda um espumante batizado de Champarrião à Maricas, por 10,60€.
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