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Restaurante que inspirou “The Bear” tornou-se famoso. Agora vende 800 sandes por dia

O bestseller da casa é o mesmo que o da série. A grande diferença é que o stress só aumentou quando a primeira temporada estreou.
Fica em Chicago.

Humor, drama, discussões, azáfama na cozinha, pratos de carne suculenta e muita confusão. Estes elementos fizeram da série “The Bear”, da Disney+, um verdadeiro êxito. Elogiada pelo público e pela crítica, foi a produção que recebeu mais estatuetas douradas na última cerimónia dos Emmys, em janeiro de 2024. A terceira temporada estreou esta quinta-feira, 27 de junho.

No entanto, queremos voltar ao início, quando o restaurante retratado na série estava afundado em dívidas, mas servia as melhores sandes de carne de Chicago, segundo diziam. Não demorou muito tempo a que o sucesso da produção atraísse uma legião de fãs ao autêntico Mr. Beef, o restaurante que inspirou o fictício The Original Beef of Chicagoland.

A série acompanha o chef Carmy Berzatto (Jeremy Allen White), que chegou a trabalhar no melhor restaurante do mundo, mas resolveu dedicar-se ao modesto negócio de família após a morte do irmão. O jovem tenta revolucionar o histórico espaço, enquanto lida com a inércia dos empregados de longa data e com os próprios traumas. Naquela cozinha, um dia normal está repleto de stress e muito drama.

A história, que muitos poderiam pensar que não passava de ficção, é bem real. “The Bear” tem pitadas autobiográficas do criador, Christopher Storer. Os pais do realizador divorciaram-se quando era miúdo. A irmã, Courtney, foi viver com o pai e cineasta ficou com a mãe. “Mais tarde, foi a comida que nos voltou a aproximar. Ela tornou-se chef e eu sempre achei que seria cozinheiro, mas não tinha o mesmo talento”, disse numa entrevista ao “The New York Times”, em 2022.

Além de traçar alguns paralelos entre o drama familiar dos Berzatto e do realizador, Storer precisava de mais. Para conseguir construir um ambiente fidedigno, entrevistou dezenas de cozinheiros norte-americanos. Um deles foi Chris Zucchero, um dos seus melhores amigos e dono do Mr. Beef, um espaço em Chicago, fundada em 1979 pelo pai, Joseph Zucchero. O espaço inspirou o cineasta na história, no espaço e na dinâmica.

Localizado no bairro de River North, o Mr. Beef costumava servir os trabalhadores das fábricas do bairro. A região modernizou-se, mas o pequeno restaurante, com os antigos balcões de alumínio e as paredes forradas a fotografias, não arredou pé. A perseverança dos Zuccheros levou a que se tornasse num dos símbolos gastronómicos da cidade.

A produção de “The Bear” gravou cenas no interior e exterior do estabelecimento. Mas, para criar o The Original Beef of Chicagoland (nome do restaurante fictício da série), construíram também uma réplica do espaço original no Cinespace, um estúdio de Chicago.

“A dada altura vejo um grande autocarro a parar em frente ao meu restaurante. Saíram imensas pessoas. Do nada, vi Storer, o meu amigo de infância e ele diz-me: ‘Eu disse-te que um dia escrever sobre isto’ Na altura não percebi como aquilo poderia escalar, mas tem sido inacreditável”, disse Zucchero em entrevista à “Variety”.

A especialidade da casa, que também ganha destaque na série, é o Italian Beef Sandwich, uma sandes que leva finas fatias de carne assada, pimentos e giardiniera, ou seja, um mix de legumes em conserva (uma espécie de pickles). Tudo isso numa focaccia, o famoso pão italiano.

Não se sabe ao certo quem inventou a receita, mas acredita-se que tenha sido criada no início do século XX, pelos primeiros imigrantes italianos nos EUA. A maioria era pobre e sofria discriminação, então tudo o que conseguiam comprar no supermercado eram as partes mais duras de carne bovina.

Sem a utilidade para preparar uma pasta ou uma pizza, decidiram criar algo diferente. Rapidamente perceberam que bastava cozinhar a carne durante várias horas para que ficasse tenra. Depois, era cortada em fatias finas (para render) e servida no pão caseiro, que ajudava a mascarar a qualidade inferior do corte.

A talian Beef foi um sucesso entre a comunidade transalpina. Passou a fazer parte do menu de festas e casamentos dos imigrantes e, nos anos 1930, o restaurante Al’s, localizado no bairro italiano de Chicago, foi o primeiro a vender a sanduíche na cidade. “The Bear”, vale dizer, causou um boom da procura e as filas à porta do Mr. Beef comprovam-no.

“Têm vindo de todo o lado”, admite o dono, que revela que nunca viu um único episódio da série e sublinha que nunca o irá fazer. “Fico sempre constrangido quando saem coisas sobre o meu espaço. Por isso, nunca vejo”, admite. No entanto, garante que tem gostado de ver todo o “burburinho” que foi criado à volta do restaurante. “Há pessoas que provocam acidentes aqui à porta, só para tentarem tirar uma fotografia.”

Os números da faturação também o deixam satisfeito com a azáfama. Antes da série, o restaurante vendia cerca de 300 sanduíches por dia, agora o número subiu para as 800 e é previsível continuar a aumentar. Porém, o sucesso não alimenta ilusões do proprietário. “Construí um género de uma parede no meu cérebro para não perder de vista o que realmente somos. Para eles não passámos de um cenário. Tento distanciar-me da fama e da confusão, porque alguém tem que acordar no dia seguinte e fazer a carne. A única coisa que sempre conheci na minha vida é aquele restaurante”, sublinha Chris Zucchero.

Como lá chegar

Para provar a especialidade servida por Carmy na série, terá de apanhar um voo para Chicago. De Lisboa consegue uma passagem direta por 539€. Do Porto e de Faro não há voos diretos, tendo que fazer uma ou mais escalas na capital portuguesa, ou outra. Assim que aterrar terá de apanhar o comboio da Blue Line. Depois só tem de sair na paragem UIC-Halsted e caminhar durante 15 minutos até ao restaurante.

Carregue na galeria para ver mais imagens do restaurante que inspirou The Original Beef of Chicagoland da série “The Bear”.

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