Nicolas nasceu na Bretanha, no oeste de França, mas foi de Paris que partiu em 2010, quando o banco onde trabalhava abriu uma vaga em Lisboa. Já falava português, língua que aprendeu com a namorada brasileira e alguns amigos, e não hesitou em mudar de vida. “Fugi de Paris”, conta em tom de brincadeira, sem esconder o alívio de ter trocado o stress da capital francesa por um ritmo mais calmo. Em Portugal, fundou a marca de molhos picantes Boca do Inferno.
Fixou-se em Nova Oeiras, onde vive até hoje com a mulher e os dois filhos, e não tem dúvidas de que foi a melhor decisão. “Adoro viver em Oeiras. Tenho mais qualidade de vida para a família, é bem mais sossegado do que Paris. Menos stress, mais sorrisos, mais calor e mais praia”, resume.
Foi já instalado em Oeiras que começou a desenvolver aquele que seria, no início, apenas um hobby: experimentar receitas e sabores diferentes nos tempos livres. Começou a explorar o mundo dos picantes depois de experimentar alguns pratos portugueses. “Em França, o hábito de comer comida picante é pouco comum, exceto em ilhas como Guadalupe e Martinica, onde tinha provado alguns pratos na adolescência”. Aqui encontrou o piripiri, feito com pimenta olho de pássaro, e foi ganhando o gosto por temperar os pratos com azeites picantes servidos nos restaurantes.
Cozinhar sempre fez parte da vida de Nicolas, curioso com receitas e ingredientes diferentes. Foi essa curiosidade que o levou a interessar-se pela fermentação em salmoura, o método antigo usado para conservar legumes durante o inverno. Além de prolongar a vida dos alimentos, a técnica traz benefícios para o organismo, já que é rica em probióticos que ajudam a digestão, além de acrescentar profundidade ao sabor.
Uma brincadeira que se tornou num negócio
A brincar com um piripiri diferente que encontrou no mercado, Nicolas criou o seu primeiro molho e ofereceu-o a amigos e família. A reação foi positiva e todos elogiaram a originalidade, o que serviu de ânimo para experimentar outras combinações com frutas. O sucesso foi o mote para, em setembro de 2024, lançar oficialmente a marca Boca do Inferno.
Os nomes dos molhos picantes são propositadamente divertidos, pensados para arrancar um sorriso mesmo antes de serem provados. Entre eles estão o Purgatório (16,95 €), o mais picante de todos, o Beijinho da Sogra (12,5€), que Nicolas costuma apresentar aos clientes na feira dizendo que “não é o mais picante, mas é o mais perigoso, pois o resultado depende sempre da sogra de cada um”, e o Ninguém Merece (15,95€), um dos favoritos dos clientes brasileiros. Há ainda o Extrema Unção (13€), feito com goiaba da horta do sogro, em Porto Salvo, o Marmelos Assassinos e a Manga Malandra, entre outros. Cada frasco tem 100 mililítros.
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Nicolas também gosta de sugerir combinações. O Só para Malucos, diz, “namora bem com carne e peixe grelhado”. Já o Pitéu da Viúva e a Manga Malandra recomenda com arroz de marisco ou de polvo, enquanto o Ninguém Merece e o Mirtilo Safado “conjugam-se muito bem” com pizza e massas. Para petiscar, sugere o Beijinho da Sogra com guacamole. E para os mais aventureiros, deixa ainda uma combinação inesperada: Marmelos Assassinos com ostras, “uma delícia”.
Os molhos combinam picante com frutas como a rainha-cláudia, goiaba, manga, abacaxi, alperce, figo e lichia, numa tentativa de privilegiar produtores locais sempre que possível. Nicolas cultiva parte das próprias pimenteiras no terração do prédio onde vive, com cerca de 50 vasos. Utiliza a Carolina Reaper, reconhecida pelo Guinness como uma das pimentas mais picantes do mundo, em muitas das receitas mais fortes.
Todos os domingos de manhã, Nicolas está presente no mercado da Vila de Cascais, onde vende os molhos diretamente ao público, e participa também em feiras no Mercado de Paço de Arcos. Os produtos também podem ser encontrados no Café e Coco, em Nova Oeiras, na plataforma online Reforma Agrária, dedicada a pequenos produtores artesanais, e na mercearia Chitas, em Azenhas do Mar. A atividade é conduzida em paralelo com o trabalho no banco, ocupando os fins de semana e os tempos livres.
Sem qualquer formação em gastronomia, Nicolas define-se como um autodidata apaixonado por sabores. “Não tenho formação, mas tenho um dom muito pronunciado para a culinária”, diz, preferindo autodenominar-se um alquimista de molhos. Todo o processo de criação passa por testar, provar e ajustar receitas com a ajuda de amigos e família, até encontrar o equilíbrio certo entre picante e fruta.
Carregue na galeria para conhecer alguns molhos picantes da Boca do Inferno.








