Em novembro, passear pelas ruas do concelho é um programa mágico não só pelas luzes de Natal que já se encontram ligadas, como pelo aroma que não deixa ninguém indiferente. O cheiro a castanhas assadas e o fumo do assador fazem parte do espírito outonal que se vive pelas avenidas de Oeiras.
No município há muitos vendedores espalhados pelas freguesias, mas poucos como António Miguel, que vende castanhas na estação de comboios de Oeiras há cerca de 50 anos. “Comecei com 20 anos, tenho 70. Vim de Sernancelhe fugido da escola. Nem terminei a quarta classe, só queria trabalhar”, afirma o vendedor.
Com 14 anos, veio para Lisboa e chegou a Oeiras para se encontrar com uma irmã. “Fui para a estação de comboios em Sernancelhe chorar e pedir que alguém me comprasse um bilhete para Lisboa porque não tinha dinheiro”.
Assim que chegou, foi trabalhar para o Alto da Barra a “dar serventia” e, durante os primeiros anos em Cascais, ficou encantado com uma senhora a assar castanhas na rua e quis aprender. “Fiquei fascinado e percebi que queria começar a fazer o mesmo. Arranjei um atrelado e fui vender para as ruas”, conta.
Os primeiros tempos não foram fáceis para Miguel. “Ainda havia a ditadura” e era ilegal vender na rua. “Todos os dias apanhava uma multa, tinha de andar a fugir com o atrelado”.
Uns tempos depois, a Câmara Municipal de Oeiras incentivou os vendedores a comprar uma locomotiva temática, para que ficassem todos iguais. “Todos os vendedores da Câmara têm este comboio, mas pintei o meu de vermelho para ser diferente e porque sou do Benfica, claro”, conta entre risos.
Depois de adquirir uma locomotiva, Miguel ficou “sediado” na estação de comboios de Oeiras e, desde então, só vende castanhas aqui. “Toda a gente já me conhece como o Miguel das castanhas. Estou cá há 50 anos.”
Como são os dias de Miguel das castanhas
A sua rotina começa logo pela manhã. Abre a locomotiva perto das 10 da manhã e vai vendendo com alguma normalidade até às 16 horas. “Depois disso, até às 19 horas, é sempre a vender. Como fico junto da estação, do lado terra, apanho muitas pessoas a vir do trabalho e que querem aquecer o estômago”, conta.
Num dia bom, chega a vender mais de 20 quilos de castanhas, apesar de não o surpreender. “As minhas são de qualidade, vou buscá-las à minha terra [Sernancelhe] e são grandes e saborosas. Sei sempre que as vou vender. Já no próximo fim de semana, vou lá cima buscar mais 1200 quilos”.
Para Miguel, o segredo está na qualidade do produto e no sal: “têm de ser boas, mas o sal também é importante, porque é ele que provoca aquele fumo e lhes dá o sabor a castanhas de rua”, confessa.
O vendedor inicia a época das castanhas em novembro e só termina em março. “Depois disso vendo cerejas até julho, altura em que as bolas de Berlim tomam conta do meu coração”, afirma o vendedor.
A locomotiva vermelha vende castanhas “do norte” a 3€ a dúzia e 1,5€ a meia dúzia, todos os dias. Carregue na galeria para ver fotografias do dia-a-dia de António Miguel.

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