Alessandro Valenti chegou a La Palma em 2021 com a ambição de abrir um novo restaurante. Dois meses depois da inauguração, o vulcão da ilha espanhola entrou em erupção ao fim de 50 anos de inatividade. O drama abalou populações e atraiu a atenção de todo o mundo. Mas o que poderia ser visto como um gigantesco azar – afinal, o restaurante estava a apenas um par de quilómetros de distância do vulcão –, revelou-se um enorme golpe de sorte: a lava que escorria pelo Cumbre Vieja acabou por dirigir-se na direção contrária.
“Tivemos muita sorte”, recorda o italiano, hoje com 51 anos. “Acabámos até por ser ponto de encontro de jornalistas de todo o mundo e de políticos, que paravam lá para comer”, conta o empresário que hoje vive e trabalha em Oeiras, onde abriu uma casa de comida italiana em 2023.
Nascido em Pisa, aos 25 anos mudou-se para o Brasil para trabalhar na restauração. Chegou a ter mais de três espaços abertos, mas por estes dias, é no La Dolce Vita que investe todo o seu esforço e onde faz comida “da forma mais caseira possível”. No centro do espaço há um forno a lenha que aquece a sala e ajuda a criar o ambiente acolhedor da casa. O segredo dos pratos está “na qualidade dos produtos e nas tradições autênticas de Itália”, explica.
Aos 15 anos desistiu dos estudos e começou a ajudar o pai nos trabalhos de carpintaria, mas “a paixão pela cozinha estava mais viva do que nunca”, apesar de não ter dinheiro para se inscrever num curso profissional. Foi com 25 anos que tirou um pequeno curso de gelataria artesanal e foi convidado pelo irmão, que já vivia no Brasil, para trabalhar num restaurante em Paraty.
“O meu irmão tinha ido para o Rio de Janeiro em 1986, foi convidado por um cliente da carpintaria a visitar Paraty e acabou por ficar lá. Em 1999 disse-me para ir trabalhar com ele e decidi arriscar.” No Brasil tirou vários cursos de cozinha até abrir uma gelataria em Búzios e outros restaurantes italianos no Rio de Janeiro.

“Os espaços foram um sucesso. Servíamos apenas gastronomia italiana e tínhamos filas intermináveis. As pizzas quadradas foram uma loucura e depois fomos acrescentando cada vez mais petiscos, como burratas, saladas, sandes, canelones e carpaccios. Eram trattorias, aquilo a que aqui chamam tascas, só com pratos caseiros e de tradição”, explica.
A vida de Alessandro manteve-se assim até 2018, altura em que foi convidado a visitar Portugal pelo chef Lucas Salvadori, dono do restaurante La Cantina, em Almada. “Deixei tudo a funcionar no Brasil e vim para Portugal aprender outras técnicas com ele. Fiquei apaixonado por Portugal, pela gastronomia, mas principalmente pela qualidade dos produtos, desde os azeites e queijos às verduras e carnes. Percebi que havia muitas semelhanças com Itália e quis trazer os meus pratos e o meu conceito para cá”, recorda.
Por lá ficou até 2021, ano em que arriscou um novo negócio em La Palma, Espanha, através do convite de um amigo. “Chegámos em julho e, passados dois meses, o vulcão da ilha, que estava inativo há 50 anos, entrou em erupção”, conta. Escapou a uma tragédia e por lá ficou durante dois anos, embora sentisse que teria algo pendente em Portugal. “No fundo sabia que queria regressar e abrir uma casa. No tempo em que vivi em Lisboa fiquei fã da vila de Oeiras e havia um cantinho que era especial.”
A oportunidade surgiu em 2023, quando esse cantinho ficou disponível. Alessandro voltou a viajar para Portugal com a família e abriu o La Dolce Vita, restaurante com 40 lugares no interior e dois na esplanada. “O nosso projeto é trazer o melhor da gastronomia italiana, com algumas receitas que eram da minha mãe. Queremos que quem venha comer a nossa pizza esqueça que a comeu em menos de uma hora. É muito leve e não fica pesada no estômago”, garante.
Nas entradas há focaccias, sendo a clássica, com alecrim e azeite, a mais pedida (8€). Outro destaque é o Antipasto della Mama (13€), uma tábua com verduras em molho agridoce, mozzarella de búfala e pão torrado.
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As pizzas caseiras são as estrelas do menu. A margherita gourmet é a mais pedida e junta burrata, pesto e manjericão. “A massa das nossas pizzas é de fermentação natural. Deixamos descansar entre 24 e 36 horas, a uma temperatura controlada, mas há alturas em que chega às 72 horas”, explica. “Assim fica mais leve e com mais ar.” Os preços variam entre os 12€ e os 16€.
Nas pastas, a mais pedida é spaghetti alla carbonara (14€), seguida de perto pelo famoso penne all’amatriciana (15€) com guanciale, queijo Pecorino e molho de tomate. Pode ainda provar a spaghetti ai gamberi (16€), com azeite, alho, gambas e salsa fresca. “As nossas massas são feitas como em Itália, sem invenções. A carbonara, por exemplo, não leva natas”, afirma com orgulho.
Os ravioli de espinafres e ricotta (17€) e a lasanha (16€) lideram as vendas. “Ambas são receitas da minha mãe, feitas como antigamente”, diz. Nas sobremesas há tiramisù (6,50€), Torino Cuore Fondente (7,50€), um bolo de chocolate cremoso sem glúten servido com gelado, chantilly e crumble, e Bunet Chocolato (7,50€), uma mousse de chocolate com licor de laranja, crumble, nozes e chantilly.
“A decoração é inspirada em Itália, com paredes brancas e toalhas aos quadrados, mas também tenho fotografias antigas de atores de cinema. O grande destaque vai para aquilo que mais une Portugal e Itália: uma camisola do Rui Costa, quando jogava no AC Milan, e outra do Figo, do tempo em que representava o Inter de Milão”, conclui.
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