São cerca de 1100 fotografias, 39 relógios, todos diferentes, e várias antiguidades do século XIX que cobrem as paredes de um restaurante que também funciona como museu, aberto desde 1976 no concelho. Fica escondido numa arcada de um prédio em Linda-a-Velha e, visto de fora, pouco revela sobre as relíquias no interior ou sobre os pratos portugueses que ali são servidos.
O Jacó está nas mãos de Carla Martins e Cesar Beltrami, de 68 anos, há 25 anos. À mesa chegam apenas especialidades tradicionais, feitas “sem segredos, como se faz de norte a sul do país”.
“A primeira fotografia que colocámos foi em 2003, era o retrato do jornalista Nélson Figueiredo, que pertencia ao jornal ‘A Bola’. Todos os retratos que temos são de comuns mortais: são os nossos clientes habituais há anos”, conta Carla. A ideia surgiu quando o casal decidiu assumir o espaço. “Comprámos o restaurante porque moramos aqui e eu até frequentava o espaço antigo. Como nos primeiros anos passávamos muito tempo aqui, comecei a fotografar, que era uma das minhas paixões”, explica.
O Jacó já existia desde 1976 e era bem conhecido entre moradores e sobretudo os taxistas. Com a chegada de Carla e Cesar, ganhou uma nova identidade. “Tivemos de fazer obras e foi aí que começámos a decorar tudo a nosso gosto, com peças antigas e relíquias únicas”, conta Cesar. Natural de Itália, chegou a Portugal aos 24 anos para trabalhar na área comercial. “Assim que cheguei não quis mais ir embora. Cheguei a ter um bar no Bairro Alto chamado Máxima Culpa, nos anos 80, mas quando viemos para Linda-a-Velha deixei-o”, recorda.
Carla teve um percurso distante da restauração. “Fui manequim e cheguei a ter três lojas Stefanel, em Telheiras, no Fonte Nova e no Colombo, mas fartei-me da rotina e dos mesmos clientes. Acabei por me cansar da área da moda”, diz. Conheceram-se nos anos 80, no Meco, e em 2001 compraram o Jacó.
“Tivemos de fazer obras e mudámos um bocadinho a estrutura do restaurante. A partir daí a ideia foi começar do zero”, explica Carla. O gosto por antiguidades levou-os a passar muito tempo em feiras de velharias, onde nasceu um hobby. “A primeira peça que comprámos foi um sino, na Feira da Ladra. Gostamos de decorar assim porque é quase um recordar de memórias de tempos antigos”, acrescenta.
Pelas paredes e prateleiras encontram-se chaves antigas, tesouras de metal, relógios, coleções diversas, esculturas em mármore e madeira. “A peça mais antiga são uns sapatinhos de miúdo do século XIX. Tenho uma coleção de oito sapatilhas e um par deles são os mais antigos. Comprámos a uma senhora na feira de Algés”, recordam.

Na cozinha, os pratos são preparados por Carla, que segue receitas tradicionais. “Desde pequena que gosto de cozinhar e quando faço receitas minhas invento, mas quando é para seguir algo típico, não altero nem uma vírgula”, diz. Durante a semana há dois pratos do dia, um de carne e outro de peixe, além das opções da carta.
Entre as especialidades, vindas de várias regiões do País, há receitas antigas recuperadas a partir de documentos históricos e arquivos municipais. “Procuramos servir receitas muito antigas. Queríamos receitas arcaicas originais”, explica Cesar.
Um exemplo são os Pivetes à Lisbonense. “É um prato muito antigo que era servido em Lisboa que basicamente leva tudo o que cheira mal: rabo de boi feito com presunto e para engrossar o molho juntamos mão de vaca desossada e é servido com arroz.” Há ainda arroz de carqueja, manta de leitão com molho à bairrada, caril de caranguejo à indiana, sopa de cação, ensopado de borrego, arroz de polvo, açorda com gambas, caril de camarão, maranhos da Sertã, rancho à moda de Viseu, mão de vaca com grão ou butelo com cascas. Os preços variam entre os 16€ e os 35€.
Há também espaço para criações próprias. O Franguinho ao Cognac é uma delas. “São franguinhos pequenos que são temperados com conhaque, vinho tinto e amêndoas de um dia para o outro, depois são selados com manteiga para o molho engrossar”, explica Carla.
Entre os pratos mais procurados, o Cozido de Enchidos destaca-se, mas só está disponível duas vezes por ano, entre fevereiro e novembro, em datas específicas. “Assim que anunciamos, esgotamos logo as reservas. É um prato que leva 19 enchidos de todo o país, cozinhados de forma tradicional, mas como cada um tem o seu tempo de cozedura é muito exigente. Leva ainda batata e feijão”, diz Cesar. “Somos um espaço que é extensão de casa, quem vem é para comer com tempo e ficar o tempo que quiser, sem pressa”, concluem.

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