Com apenas 20 anos, mas já com uma larga experiência de vida noutros países, inclusive Portugal, Conceição Sabino mudou-se para a Sardenha, onde trabalhou como babysitter para uma das famílias mais ricas de Itália. O estatuto colocava-os na mira da Máfia e por isso mesmo, a jovem teve que aprender a disparar armas e a defender-se, caso algo acontecesse. Estava preparada para tudo. “Lembro-me de um dia em que tive apenas 10 minutos para pegar nos miúdos e preparar um carro para ir de Cagliari até Santa Teresa Gallura, na Sardenha”, conta hoje a italo-portuguesa de 67 anos, que por estes dias mora e trabalha em Oeiras.
De volta a Portugal em 2011, gere hoje o Massa Fresca da Avó, no Mercado de Oeiras, onde ainda se inspira na experiência italiana para servir especialidades transalpinas aos oeirenses, num pequeno espaço inaugurado em 2021 e onde cabem apenas oito pessoas. Pelo caminho, recorda refeições servidas a estrelas de cinema, Barack Obama e até o Papa João Paulo II.
“O meu pai é italiano e a minha mãe angolana. Eu nasci em 1956 na Itália, mas ainda bebé fui viver para Angola. Ficamos lá até aos meus 11 anos, altura em que viemos viver para Portugal, para a Póvoa do Varzim, onde fiquei até aos meus 18 anos”, conta. Foi aí que aprendeu tarefas ligadas ao campo, desde plantar e cavar à apanha da azeitona e à pisa das uvas. Aos 18 anos, decidiu sair e procurar novas oportunidades.
“Tinha feito uma amiga, filha de imigrantes, que morava na França. Durante o verão disse-lhe que queria sair e arranjar trabalho e ela em outubro disse-me que me arranjava um trabalho como babysitter”, recorda.
Mudou-se depois para Paris, onde começou a trabalhar para uma das famílias mais ricas de Itália, da linhagem do Marquês de Sardenha. O trabalho passava por cuidar dos dois netos. “Quando cheguei a Paris nem queria acreditar, sempre tive o sonho de ver a Torre Eiffel ao vivo e quando me apercebi que o apartamento tinha vista direta para a torre fiquei deslumbrada.” Ficou por lá apenas quatro semanas, antes de os acompanhar para a Sardenha, residência habitual da família, onde teria o encargo de cuidar das crianças.
Em Cagliari, vivia numa herdade com vista para o mar e enfrentava grandes responsabilidades. “Era uma família muito poderosa na Itália e a Máfia andava sempre de olho nos miúdos”, recorda. Com os pais frequentemente ausentes, era a então jovem com apenas 20 anos quem geria a casa.
“Aprendi a defender-me e a disparar armas. Longo num dos meus primeiros anos, eles foram de viagem de veleiro em maio e só voltavam em agosto. Disseram que quem mandava era eu então a primeira coisa que fiz foi substituir toda a relva de casa por gravilha muito pequena, para conseguir ouvir passos”, conta.
Dias depois, viveu um episódio marcante. “Comecei a ouvir passos a rondar a casa e contactei os guardas. Deram-me dez minutos antes de dispararem, para meter os pequenos no carro e sair até Santa Teresa Gallura, onde havia outra casa da família.” Fez a viagem de cerca de três horas e meia sem parar. “O meu objetivo era deixar os miúdos a salvo.”
Aos 30 anos, decidiu mudar de vida e procurar maior estabilidade. Comprou casa em Roma e iniciou uma nova fase. “Foram 10 anos de muita correira e de viver no risco. Eu fazia tudo porque os pais raramente estavam presentes. Acabei por conhecer e privar muitas pessoas com influência, como a família Agnelli, donos da Fiat.”
Pouco tempo depois, foi convidada pelo produtor de cinema Aurelio de Laurentiis para ser sua assistente pessoal. “Trabalhei com ele durante seis anos, foram anos loucos. Trabalhava num palácio muito perto do Coliseu, ajudava a preparar salas de cinema e era cozinheira dele. Fazia um bocadinho de tudo”, recorda. À noite, cozinhava em jantares privados para várias figuras conhecidas. “Como tinha contacto com muitos famosos, desde atores e apresentadores de televisão ou cantores, acabei por ser chamada para cozinhar em jantares privados, cheguei a servir Raffaella Carrà.”
Mais tarde, recebeu o convite para ser cozinheira na Embaixada da Santa Sé, no Vaticano, função que desempenhou durante 20 anos. “Era das poucas chefs que tinha as bases que eles queriam, mesmo sem ser ‘oficialmente’ chef de cozinha. Tinha as bases francesas, portuguesas e italianas.” Durante esse período, serviu várias figuras internacionais, incluindo Barack Obama e o Papa João Paulo II. “Foram anos incríveis.”
Em 2011, regressou a Portugal para cuidar da mãe. “A minha mãe estava doente e precisava de cuidados. Decidi regressar a Portugal e ficar com ela a tempo inteiro”, explica. Continuou a trabalhar em jantares privados e, em 2020, decidiu criar um projeto próprio. Nasceu assim o Massa Fresca da Avó, no Mercado Municipal de Oeiras, um espaço com apenas oito lugares, dedicado à gastronomia italiana e com produtos importados diretamente de Itália.
“Tenho produtos de máxima qualidade, todos os anos vou à Itália buscar novidades. Somado a isso tenho a minha experiência que acho que acaba por fazer toda a diferença. Aqui ninguém sabe o que vai comer, eu brinco com os clientes”, diz.
O restaurante funciona apenas com menu de degustação, entre 35€ e 40€, que inclui entrada, prato principal, sobremesa e vinho. “Só trabalho com produtos de qualidade, pergunto aos clientes se são alérgicos a alguma coisa e depois faço uma criação na hora, com o que tenho e o que me apetecer naquele dia.”
Além das refeições, vende também queijos, enchidos, vinhos e biscoitos tradicionais. “Sou um espaço 100 por cento italiano, faço a massa à mão, com máquinas antigas e só vendo produtos regionais.”
O espaço reflete essa identidade, com elementos decorativos ligados a Itália, desde os tons das mesas aos detalhes nas paredes e objetos expostos.

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