Em 2008, Amy Winehouse subiu ao palco do Rock in Rio Lisboa para um aguardado concerto que ficou na história do festival pelos piores motivos. A britânica, cabeça de cartaz, arrancou o primeiro e único espetáculo em Portugal com 40 minutos de atraso. Durante uma hora, pouco cantou, cambaleou muito e gerou críticas entre as mais de 90 mil pessoas presentes.
Winehouse já estava frágil, haveria de morrer em 2011, vítima de intoxicação alcoólica, mas horas antes desse concerto na capital sentou-se à mesa de um conhecido espaço oeirense, O Orelhas, onde a esperavam três garrafas de vinho tinto do Douro, um pedido especial da própria. “Na altura ela exigiu um bom vinho e eu escolhi o Batuta. Veio almoçar e levou a caixa para ter no camarim”, recorda Paulo Travassos, proprietário do espaço. “Pelo que soube mais tarde, parece que não foi uma boa ideia, porque ela subiu ao palco embriagada.”
O responsável, de 55 anos, está habituado a ver famosos desfilar pelo espaço em Queijas. Em 2010, foram os U2 que passaram pelo local. “O promotor avisava-nos sempre quando vinham e eu tratava de tudo”, explica sobre a casa que se orgulha de ter uma garrafeira com mais de 18 mil garrafas e cujo nome tem uma origem curiosa.
Nos tempos de escola, Paulo era conhecido como orelhudo, alcunha que nunca o incomodou. A pedido do filho, fundou um restaurante que fosse “a sua cara”. O Orelhas abriu em 2002, quando Paulo tinha 31 anos, mas o seu percurso na restauração começou muito cedo.
“Tinha 12 anos quando tive o meu primeiro emprego, era copeiro na Pastelaria Matinal, em Lisboa. Levantava-me todos os dias às cinco da manhã e tinha de apanhar três autocarros diferentes porque morava em Santo António dos Cavaleiros. Nos primeiros anos tinha de trabalhar em cima de uma grade de cerveja para chegar ao balcão, era muito pequeno, tinha pouco mais de um metro e 30 de altura”, recorda.
Na pastelaria foi subindo de cargo até passar a gerente do espaço. Ficou por lá até aos 26 anos, altura em que surgiu um desafio que viria a mudar-lhe a vida. “Passava muita gente diferente por lá, vendíamos mais de 10 quilos de café por dia. Tínhamos clientes habituais e foi através de um deles que soube que em Queijas havia um restaurante que ia fechar portas. Decidi investir e fiquei no negócio.”
Chamava-se Quicas e, na altura, o aluguer custou 20 mil contos, o equivalente a cerca de 100 mil euros. Paulo abriu as portas do seu primeiro espaço a 1 de abril de 1997, de bolsos vazios. “Fui às compras nesse dia de manhã, à Makro, tinha apenas 120 contos, levei uma máquina de calcular para contar tudo certinho e não passar vergonha na caixa.”
O que Paulo não sabia era que o Quicas se tornaria um dos espaços mais emblemáticos de Queijas em poucos meses. “Como tinha pouco staff e não tinha dinheiro para lhes pagar, pedi ao meu pai [António Travassos] que me ajudasse na cozinha, ele era cortador. Passados 10 meses consegui pagar o investimento, nem queria acreditar”, relembra.
Durante anos, o Quicas “era mais conhecido do que Queijas”. O espaço tinha filas de espera todos os dias e só aceitava reservas. Serviam-se pratos de gastronomia portuguesa num restaurante com capacidade para pouco mais de 40 pessoas.
“Em agosto de 1999 tivemos o melhor dia, fizemos 819 contos, que são quatro mil euros. Tive um aniversário de 38 pessoas que chegaram para almoçar cedo e só saíram daqui às 19 horas, sempre a comer e beber.”
Em 2002 tentou comprar o restaurante, mas como pertencia à cooperativa do bairro, o pedido foi-lhe negado. Para sua sorte, os prédios da zona mais baixa de Queijas estavam a começar a ser construídos e um deles tinha uma loja que podia transformar-se num futuro restaurante. “Os construtores iam comer muitas vezes ao Quicas e fui-me apercebendo de que podia investir num restaurante sem sair da zona”, diz.
O Orelhas abriu finalmente em março de 2002 e, desde então, tornou-se num ponto de referência em Queijas e no concelho. “Seguimos a linha que tínhamos, de gastronomia portuguesa, os nossos pratos são todos tradicionais. O segredo está no fundo do tacho, nos refogados que se faz”, conta.
Apesar do menu recheado de pratos tradicionais portugueses e muito peixe, há petiscos fixos com dias próprios. O cozido à portuguesa é servido à quinta-feira e ao sábado durante todo o ano, tal como o cabrito assado. À segunda-feira há feijoada e queixada de porco preto, à terça-feira arroz de lebre e faceira, às quartas-feiras favas e às sextas-feiras dourada, mão de vaca com grão e rabo de boi assado no forno. A cabidela é servida todos os dias.
“As pessoas às vezes dizem que no Orelhas uma refeição é cara, mas isso não é verdade. Os nossos pratos variam entre os 20€ e 50€. O caro são os vinhos que se bebem”, explica. E na verdade, o Orelhas esconde um verdadeiro tesouro, com 18 mil garrafas. “Tenho na garrafeira, no restaurante, e depois guardo o resto em mais dois locais, sendo que um deles é na garagem.”
O fascínio de Paulo pelos vinhos passa pela coleção, com exemplares de vários países e até raridades, mas há um detalhe curioso: nunca provou um único. “A minha mãe era alcoólica e morreu muito cedo devido a esse problema, então talvez por medo nunca quis experimentar. Sempre fui muito interessado e adoro perceber de vinhos, pesquiso muito e falo com as pessoas que sabem mais sobre o assunto”, garante.
Desde que abriu o novo espaço, tinha como missão construir uma das melhores garrafeiras de Portugal. E o que é certo é que opções não faltam e já se tornaram símbolo da casa.
“Nos primeiros anos vendia garrafas de vinho como se fossem água. Num dia, durante os almoços, abri 31 garrafas de Pêra Manca tinto, que naquela altura custavam 180€ cada uma. Em 2009 tive aqui um grupo de quatro amigos que gastaram 34 mil euros num jantar. Pediram um cabrito no forno que ficou à volta dos 140€, mas depois beberam garrafas acima dos nove mil euros”, recorda.
Por lá encontram-se garrafas de todo o mundo, como Romanée Conti ou Château Angelus. “O primeiro que comprei para a garrafeira foi Tapada de Coelheiros, depois Pêra Manca e Barca Velha. O mais raro que tenho é um vinho muito difícil de arranjar, tive seis meses para conseguir porque há cinco mil pessoas em fila de espera. Chama-se Screaming Eagle e custa sete mil euros”, conta. Mas a garrafa mais valiosa continua a ser bem portuguesa, tal como o espírito e os pratos que chegam à mesa, um vinho do Porto de 1881 garrafa mais antiga que tem é portuguesa: um vinho do Porto de 1881, que pode provar por três mil euros.








