Esta receita com mais de 250 anos de história remonta ao tempo do Marquês de Pombal e chegou a ter uma fábrica própria para a sua produção no concelho. Durante muitos anos deixou de ser produzida, mas há cerca de 15 anos Jorge Freire, 67 anos, voltou a recuperar a receita desta especialidade com selo de Oeiras. Os Palitos do Marquês são feitos e vendidos “à mão” nas pastelarias Paris Village, abertas desde 2011 no centro do município, e são para muitos oeirenses um símbolo de infância.
“Segundo a história, a receita veio de terras britânicas, quando Marquês de Pombal morava por lá, nos anos de 1770, e era conhecido como o biscoito das naus: porque tem uma grande durabilidade e era um alimento que seguia nos barcos para os navegadores. Mais tarde, já em Portugal, quando Marquês de Pombal é afastado do poder, os cozinheiros do seu palácio ficaram sem trabalho e, para se sustentarem, começaram a produzir os biscoitos a que deram o nome de Palitos do Marquês”, conta Jorge à NiO, fundador da Paris Village.
Até ao século XX, foram comercializados no centro da vila de Oeiras por um negócio familiar que acabou por fechar. Os irmãos Carlos e Rui Malato fizeram renascer a receita, que voltou a ser produzida no seu estabelecimento criado por ambos nos anos 2000. “Encontraram uma senhora ligada aos últimos produtores de palitos que lhe passou a receita.” Em 1998, Jorge ficou com a Paris, pastelaria de renome aberta desde 1974 em Oeiras, e mais tarde adquiriu a patente da receita. Desde então que o doce é produzido nas suas pastelarias.
A paixão de Jorge pela pastelaria começou cedo, quando aos 13 anos saiu da terra natal, na Serra da Estrela, para Lisboa. “Inicialmente vim para um seminário, em Santarém, mas não aguentei lá um ano. Vim para Lisboa trabalhar, sozinho, e comecei numa mercearia nos Olivais”, conta.
Antes de completar 18 anos, entrou num restaurante que o marcou: começou a trabalhar no Faz Frio, no Príncipe Real, onde ficou durante cinco anos. “Entrei em 1974 e aquilo era uma bolha. Atendia comandantes da marinha, jornalistas, políticos e ministros: muitas personalidades importantes para o 25 de abril passaram por lá. Lembro-me que me tratavam quase como um filho, era muito novo, cheguei a atender José Cardoso Pires ou Alexandre O’Neill”, conta.
Em 1979, foi cumprir o serviço militar obrigatório e, quando regressou, aventurou-se no ramo das pastelarias. Chegou a ter dois espaços na Ajuda e, em 1998, estabeleceu-se em Oeiras.

“Comprei a Paris em 1998, depois em 2011 abri a Paris Village e, dois anos depois, abri também a Paris Gourmet, ambas em Oeiras. Em 2019, vendi a Paris ‘clássica’ e fiquei com as outras duas”, explica. A produção dos Palitos do Marquês é feita apenas na Paris Village e na Paris Gourmet, uma especialidade é vendida em embalagens de 10 unidades por 3,75€.
“É um biscoito pouco doce que acompanha bem chás ou até um copinho de vinho de Carcavelos. A sua produção é demorada, faço algumas fornadas que me duram várias semanas: faço a massa que vai ao forno, depois é esticada e tem de ser palitada. Vai novamente ao forno e pode ficar algumas horas a cozer a 100 graus. Deixo quase uma noite”, confessa.
A especialidade “que já foi mencionada num livro de Eça de Queiroz”, leva canela e tem um leve travo a limão. Além dos Palitos, também as Queijadas de Oeiras são produzidas nas pastelarias Paris e essa receita está apenas nas mãos de Jorge. “Esta não mostro a ninguém, sou o único que a faz”, diz. Criadas pelos irmãos Carlos e Rui Malato, em 2002, as Queijadas de Oeiras participaram no “V Concurso de Doçaria Regional”: utilizaram a castanha do Alto Alentejo na sua confeção e foi distinguido com o primeiro prémio.
“Quando me passaram a receita dos palitos, fiquei também com a das queijadas e são o doce mais procurado das Paris Village e Gourmet, só nós é que fazemos.” O doce tradicional é vendido à unidade (1,65€) ou em caixas de seis unidades (9,90€). “A massa é rápida de fazer, todos os dias temos fornadas de 30 ou 40 unidades”, confessa.
Além da castanha, feita a vapor, o doce leva queijo fresco de vaca, ovos e “outros ingredientes surpresa”, mas “não leva farinha”. Nas pastelarias de Jorge encontram-se doces tradicionais do concelho, bem como produtos típicos da pastelaria portuguesa, todos de fabrico próprio. “Fazemos também bolos de aniversário (19€/quilo) e os nossos pastéis de nata são muito apreciados”, acrescenta.
Cada pastelaria tem 44 lugares na esplanada e 42 no interior. Para lá das vitrines com bolos e doçaria, o espaço apresenta uma decoração moderna no interior e uma fachada clássica em tons de preto e branco.

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