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Dono de restaurante diz que Ljubomir lhe deu receitas copiadas da TeleCulinária

O cozinheiro, Pina, já não trabalha no Mirante da Rocha — o espaço em destaque no último “Pesadelo na Cozinha”.

O Mirante da Rocha existe em Carnaxide, no concelho de Oeiras, há várias décadas — mas Fernando e a mulher Dalva só são responsáveis pelo espaço há cerca de um ano e meio. O restaurante esteve em destaque no episódio deste domingo, 29 de dezembro, de “Pesadelo na Cozinha”, programa da TVI conduzido por Ljubomir Stanisic.

“O problema da casa, por ser velha, era mais estético. Estava muito feia e precisava de umas melhorias e de umas obras. Mas as alterações foram só uma maquilhagem, que é o habitual”, conta Fernando, brasileiro de 42 anos que se mudou para Portugal há duas décadas — já nem restam muitos indícios de sotaque.

Foi uma pessoa amiga que os inscreveu no programa, quando percebeu que estavam a atravessar dificuldades. O restaurante é velho e não consegue atrair muitos clientes. Apesar de não ter dívidas, Fernando diz que também quase não consegue fazer dinheiro.

O espaço está dividido em dois: quando se entra no Mirante da Rocha, há primeiro uma zona de bar ou café — onde Fernando costuma estar — e, depois do corredor, existe a sala do restaurante. Ou seja, é um dois em um, sendo que o Mirante da Rocha está aberto durante todo o dia, entre as sete horas da manhã e a meia-noite. A parte de restaurante só está aberta às horas das refeições.

Além de Fernando, o staff era composto por Carolina, empregada de mesa, e o cozinheiro Pina. A mulher de Fernando, Dalva, também trabalha no espaço, mas sofre de fibromialgia, uma doença crónica que faz com que tenha de passar muito tempo em casa a repousar. 

O Mirante da Rocha é sobretudo frequentado por pessoas que trabalham ali na zona — seja em obras ou em escritórios — e que precisam de um menu acessível para almoçar. Os pratos do dia de comida portuguesa são o grande destaque do restaurante, porque o menu custa 8,50€ (subiu 1€ desde o programa) e inclui couvert, entrada, bebida e sobremesa. 

Fernando e a família também vivem em Carnaxide. O responsável pelo restaurante diz que naquela área moram pessoas de uma classe média alta que não estão interessadas no seu espaço. “É uma zona de pessoal que tem algum dinheiro, na grande maioria. Ou seja, uma pessoa que tem dinheiro não vem comer hambúrgueres nem bitoques. Pega no carro e vai para Lisboa, para Cascais ou para a Margem Sul, mas não para aqui.”

As gravações de “Pesadelo na Cozinha” — e a má relação com Ljubomir Stanisic

As filmagens do episódio de “Pesadelo na Cozinha” aconteceram na semana de 14 de outubro. Segunda-feira foi o dia normal de gravações — para captarem imagens do funcionamento habitual do restaurante. Como é costume, Stanisic chegou na terça-feira para almoçar e conhecer o espaço. 

“Não gostou de nada. Aquilo que ele pediu estava tudo fresco, porque eu tinha ido comprar naquele dia. Pediu os pratos do dia. Eu sei que não é a melhor coisa que se come na vida, mas dizer que é uma merda… E são coisas que ele diz a todos. Uma pessoa já está em baixo, não tem clientes, precisa de ajuda, está em dificuldades — às vezes até por culpa nossa, mas pronto, não precisamos daquilo…”

Fernando não gostou dos métodos de Ljubomir Stanisic para tentar ajudar o seu espaço. “Ele fez uma crítica à Carolina e disse que ela não percebe nada da sala. Mas ele não foi lá ensiná-la. Tirou-a da sala e meteu-a na cozinha. Ok, eu sei que ela não sabe nada da sala. Mas não percebe da sala e vai para a cozinha fazer o quê? É desenrascada, mas temos que dar o nome aos bois. Se tenho a Carolina na sala, não posso deixar que ela vá para a cozinha. Ele pode ser um bom gestor, bom cozinheiro, bom tudo, mas a ajudar acho que está um pouco atrapalhado.”

O responsável pelo Mirante da Rocha sente-se desiludido com a situação. Sabia como iria ser à frente das câmaras — mas tinha a ideia de que nos bastidores iriam haver conversas que ajudariam a solucionar os problemas do restaurante.

O espaço ficou muito diferente.

“Nunca tivemos uma conversa entre nós os dois, ou com pessoas da equipa, para falarmos sobre como é que conseguimos dar a volta a isto. Foi simplesmente aquela atuação. À frente das câmaras é ‘foda-se’, ‘caralho’, ‘puta que pariu’, ‘você é um merdas’, ‘você não sabe gerir’. Quando acaba: ‘acabou, está tudo bem? Ok, vou-me embora’. Nem ‘xau’ nem ‘oi’, da forma que aparecia também desaparecia.”

E acrescentou: “Sabia que ia ter toda esta parte de drama — isto parece uma novela —, não somos estúpidos, mas pensámos que iria haver algo de bastidores, uma conversa, que ajudasse a que tudo fizesse sentido. Não queria que me dessem dinheiro, queria que ele me desse sugestões.”

Fernando diz que sentiu que as gravações foram feitas à pressa e afirma que Ljubomir Stanisic só lá esteve dois dias — no tal almoço de terça-feira, ao jantar no mesmo dia, e na quarta-feira. “Não sei se não gostou de nós, de mim, ou assim, mas se uma pessoa se propõe a ajudar a outra, então está no lugar errado se questiona e julga as pessoas sem as conhecer, não se conhece uma pessoa num dia ou dois. Tudo aquilo que ele me disse, que é muito frontal, que diz o que pensa, que não sei quê… Ele nem me conhece, como é que vai pensar alguma coisa?”

O gerente brasileiro considera que Ljubomir faz o mesmo papel em todos os programas. “Nota-se que são regras. Aquela coisa de ele deixar as pessoas e ‘desenmerdem-se, vou-me embora.’ Passados cinco minutos volta, ‘estou aqui para ajudar’. Já começa a tornar-se um bocado ator. O Gordon Ramsay chega, faz a cabeça a toda a gente, mas as mudanças que ele faz nos restaurantes é uma coisa fora de série.”

Na habitual conversa entre Stanisic e o staff do restaurante num ambiente mais informal, Fernando diz que não sentiu que estivesse a haver um verdadeiro diálogo — achou que era um “discurso estudado” que o chef jugoslavo também já tinha dito noutros programas. “O que me disse a mim disse aos outros. Não se sente que foi pessoal. Ali ele é um ator. Se calhar as pessoas precisam dessas palavras, mas não é verdadeiro, são textos decorados. Ele deve implementar os ‘putas que pariu’ e os ‘caralhos’ e ‘cabrões’ dele, mas a base é a mesma. Se fosse espontâneo, ele não pedia para parar e recomeçar a gravar [um novo take]”.

Fernando diz que sentiu que o seu papel ali era o de “calar e comer”, porque está em dificuldades e não pode fazer nada. “Mas porque é que ele não entra num dos restaurantes de cinco estrelas, que também têm muitos problemas? Porque se calhar tinham resposta à altura. Ele tem dinheiro para se defender, mas se calhar um dono de um cinco estrelas também tem dinheiro para o processar. Eu não posso fazer nada, tenho que me calar, não tenho como reagir. Se calhar, se pudesse, ele não falava assim comigo. Porque ele ofende mesmo as pessoas a um nível pessoal.”

Tal como outros proprietários de restaurantes explicaram à NiT, foi muito difícil manter o funcionamento habitual do espaço durante a semana de gravações. A higiene é sempre um ponto em que se toca nos programas — mas Fernando foi mais um dos gerentes que explicaram que não tiveram hipótese nenhuma de limpar nada.

“Depois do almoço que servimos na segunda-feira disseram para pararmos tudo e para não fazermos mais nada, para deixarmos tudo como estava. Ou seja, segunda, terça, quarta-feira… nestes três dias nem sequer limpámos a casa de banho porque não nos deixavam. Nem limpar o chão nem nada. É lógico que vai ter sujidade. Nem sequer almoçávamos aqui, tínhamos de ir ali à frente. Foram coisas que nos surpreenderam e não tivemos ajuda efetiva.”

Fernando diz que Stanisic exigiu que limpassem a cozinha até às tantas da madrugada na primeira noite que lá esteve para que estivesse “impecável” quando voltasse na manhã seguinte. “Nós ficámos até às duas ou três da manhã a limpar. Mas há sempre que limpar: há gordura, sujidade, uma grelha a carvão. Às vezes fica para amanhã ou para o fim de semana, é normal. Se entrássemos ali agora e começássemos a limpar também só acabávamos lá para as três ou quatro da manhã.”

Fernando está em Portugal há 20 anos.

Ljubomir Stanisic também criticou a postura de Fernando, acusando-o de passar demasiado tempo “na galhofa” à conversa com os clientes — mas o responsável pelo Mirante da Rocha defende-se. 

“O meu cliente é meu cliente. Porque pode vir hoje beber um cafézinho, e pode achar-nos simpáticos e amanhã vem cá almoçar. Não posso chegar aqui e maltratar as pessoas, independentemente dos meus problemas todos, porque se não ainda vão ficar maiores. Ele não gostava de me ver a rir, achava que se estou com problemas e dificuldades tinha de estar triste e cabisbaixo. As pessoas não gostam da felicidade dos outros.”

Outra questão são os problemas da casa de banho, que nem foram abordados no programa. Quando já estavam em contacto com a produção, Fernando teve de responder a um questionário onde explicava que tinha problemas na casa de banho. O espaço é velho, os sanitários ficam no piso de baixo e não existe uma boa ventilação. 

“Principalmente no verão fica um mau cheiro. As últimas obras ali feitas têm no mínimo 40 anos. Ele foi lá, disse que cheirava mal, a naftalinas e a lixívia e não sei quê… nós avisámos que tínhamos problemas lá. Que situação é que ficou ali resolvida? Nenhuma. O que é que fizeram? Puseram uma vela de cheiro. É uma demonstração de que não foi feito nada.”

Ainda assim, Fernando sente-se grato por aquilo que foi feito e diz que Ljubomir lhes deu algumas dicas na cozinha que são uma mais-valia. “Não me arrependo, vale pela experiência.” E gostou de colaborar com algumas pessoas da produção. “Sou grato pelo que foi feito, só que a expetativa que tinha, quando é um programa da TVI líder de audiências, mediante a situação, esperava outra coisa. Essa foi a minha deceção.”

Ljubomir Stanisic deixou várias sugestões diferentes de pratos do dia, mas a esperança de Fernando era que juntos tivessem elaborado uma carta a pensar nos jantares, que pudesse atrair clientes — e que fosse mais rentável, sem menus do dia. “Continua exatamente igual. E não nos ensinaram a fazer outras coisas. As fichas técnicas que eles nos deram… no início fiquei empolgado, vamos seguir as fichas e fazer algo interessante, mas se for aqui à net as fichas são da TeleCulinária. É tal e qual a mesma coisa.”

Pina já não trabalha no Mirante da Rocha

O cozinheiro Pina não durou muito mais dias na cozinha do Mirante da Rocha depois das gravações de “Pesadelo na Cozinha”. “Ele bloqueava completamente e não dava, por isso é que não ficou. Estamos a trabalhar com um prato do dia de peixe e outro de carne, depois entra um bitoque na cozinha e ele não consegue fazer… com meia dúzia de clientes na sala, desculpe, mas não dá. Ele disse que não conseguia fazer e eu com o meu feitio disse ‘assim não’. Se é uma coisa que temos na carta… o que é que eu vou dizer ao cliente? Como gestor disto ia esconder-me debaixo da mesa com vergonha. Entrei na cozinha com os níveis de stress altos e a coisa correu mal, ele disse que ia embora, e então é já, não é para depois. São coisas que acontecem e não é pelo programa.”

O restaurante está mais bonito, mas tudo o resto está igual

As paredes eram vermelhas, escuras e pesadas. A decoração está agora bastante diferente, em tons azuis e mais claros, o que contribui para um espaço mais agradável. Além disso, foram retiradas várias mesas. Se antes tinha 90 lugares sentados, agora são 52. 

Fernando reconhece que o restaurante está com uma apresentação melhor, mas diz que é “uma coisa mesmo superficial, uma maquilhagem”. “Pintar paredes, pôr cortinados e meia-dúzia de candeeiros, uma fritadeira de 150 ou 200 euros… Se calhar com um esforçozinho conseguia fazê-lo também. Esperava muito mais. Há coisas muito simples de fazer que não foram feitas. Por exemplo, estas madeiras à volta da janela poderiam ter sido lixadas e pintadas. Podem dizer que eu era maluco, sonhador, mas nunca imaginei que só iam fazer isto.”

No bar foi ainda instalada uma montra com petiscos, mas Fernando diz que não há grande procura, sobretudo nesta altura do ano. “Foi feito um investimento de forma errada. Havia coisas mais necessárias do que aquilo, que tornariam o nosso dia a dia mais fácil. Tínhamos um problema na máquina de lavar loiça, por exemplo, sendo que entretanto já mandei arranjar a máquina.” Na cozinha foram colocadas novas tábuas, Tupperwares e a tal fritadeira.

O Mirante da Rocha tem uma zona de bar e café.

Fernando conta que no início, após as alterações, havia mais alguns curiosos a entrar no espaço, mas de resto não sente grande diferença. “Não nos trouxe grandes melhorias a nível estético, a nível de clientela também não, porque não estamos a usar a ementa que nos deixaram. Bitoques, omeletes, hambúrgueres… Acho que um restaurante como este merecia mais alguma coisa… A nossa carta não era muito extensa, mas tínhamos coisas que não têm nada a ver com o que há hoje. Hoje praticamente não tenho uma carta. Só trabalhamos com pratos do dia.”

O gerente brasileiro diz que Stanisic deixou algumas boas sugestões para pratos do dia, opções rentáveis, mas que muitas vezes não atraem clientes, como a brandade de bacalhau ou a açorda de ovas. “Fica muito saboroso, mas muita gente não conhece.” Implementaram algumas opções para experimentar, mas ainda nada é certo — agora estão a trabalhar com uma nova cozinheira e, se permanecer no Mirante da Rocha, terá de ter uma palavra a dizer sobre a carta que for fechada.

“O que me preocupa é que as coisas fiquem pior, como acontece com muitos restaurantes depois do programa. Se tínhamos problemas ou estávamos a cometer erros a gerir recursos, a fazer contabilidade, nas compras, continuamos a fazer igual, porque ninguém nos disse nada sobre isso.”

A vida de Fernando antes de chegar ao Mirante da Rocha

Fernando chegou a Portugal com 22 anos, vindo do estado brasileiro do Paraná — e desde o primeiro mês no País que trabalha em hotelaria. Passou por três restaurantes: o Pastorinha, em Carcavelos; o Caravela de Ouro, em Algés; e o restaurante CIF, no Restelo, em Lisboa.

Por volta de 2013 ou 2014, quando a crise económica ainda se fazia sentia em Portugal, foi com a mulher para o Brasil. A ideia era ficarem lá a trabalhar num negócio na área da saúde em que está envolvido, mas não se adaptaram ao país e Fernando conta que em termos de segurança a situação ainda estava bastante complicada.

Regressaram passado pouco tempo e a ideia foi logo abrirem um negócio próprio. Pensaram numa loja, mas o setor em que tinham mais experiência era o da restauração — Dalva tinha trabalhado no bar de uma escola pública e feito alguns serviços extra com o marido nos restaurantes.

Depois, encontraram o espaço do Mirante da Rocha, disponível para alugar — os antigos gerentes são os donos do imóvel. “Eles é que levantaram isto e deixaram isto cair. E refazer, levantar algo outra vez, é muito mais difícil. Depois do programa espero poder continuar a pagar as contas.”

Fernando já foi jantar ao 100 Maneiras — e não achou nada de extraordinário

Fernando já esteve no 100 Maneiras, o restaurante de Ljubomir Stanisic, muito antes de alguma vez imaginar que o chef iria estar num espaço seu. “Todos os restaurantes têm críticas, se formos agora à página do dele tem críticas. Já lá fui há muito tempo. É caríssimo e não é nada de extraordinário. Paga-se 100 ou 120 euros por pessoa e depois vai-se para a roulote comer uma bifana. A verdade é essa.”

Foi instalada uma montra de petiscos, mas não tem muita procura.

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