Há 17 anos que o Café & Coco ocupa a mesma rua de Nova Oeiras. À primeira vista, parece um café de bairro como tantos outros, mas basta entrar para perceber que por ali sobrevive algo de diferente. Além do balcão recheado de doces, pão e salgados, há montras e expositores com produtos de pequenos produtores portugueses. A proprietária, Tânia Santos, 44 anos, mantém como eixo do negócio a vontade de transformar o espaço num local de acolhimento e inclusão.
Os pais de Tânia chegaram a Portugal vindos de Angola, em 1975. O pai, que já tinha trabalhado numa mercearia, começou por vender legumes na rua, num carrinho, até conseguir abrir uma pequena mercearia. Mais tarde mudou-se para um espaço maior, numa altura em que ainda não existiam grandes superfícies na zona. A loja manteve-se aberta durante 30 anos, precisamente no local onde hoje funciona o Café & Coco.
Tânia nasceu em fevereiro de 1982, poucos meses depois de a mãe se ter mudado, ainda grávida, para Nova Oeiras. Cresceu entre o balcão da mercearia e o exemplo de trabalho dos pais. “Desde pequenina que sempre disse que queria ser dona de um café”, conta, entre risos. Em casa, chegou até a servir café aos pais e a cobrar-lhes pelo serviço. “Na altura, eram uns escudos por cada café”, recorda.
O percurso profissional de Tânia passou primeiro por um curso de Gestão e por um emprego na área de secretariado, mas a vontade de abrir um café manteve-se. Quando a mãe adoeceu e os pais começaram a pensar no futuro da mercearia, propuseram-lhe ficar com o espaço. Tânia aceitou, com uma condição: teria de ser algo com que se identificasse. Assim nasceu o Café & Coco, aberto a 11 de julho de 2009. O pai continua a passar regularmente pelo café, para saber como está a filha e ajudar no que for preciso.
Hoje, as montras e prateleiras refletem essa filosofia. O café reúne mais de 20 parcerias com pequenos produtores portugueses, cerca de metade deles de Oeiras. Há compotas artesanais da Casa do Pinheiro, peças de cerâmica, velas, porta-chaves e bijuteria da MCastilloDesign-Ärts, snacks de fruta sem açúcar da Fruta Cool, méis de produtores nacionais como o Mel Vale Sagrado, de Arlindo Augusto Velho, e o Mel Aproveste, além dos molhos picantes Boca do Inferno.

O pão chega diariamente da padaria O Pão do Alex, com variedades como o Moleiro, o Talego ou o Lusitano, produzido apenas com cereais nacionais. Entre os expositores há também espaço para vestuário da marca Bagatellas, criada por uma amiga de Tânia, com novas peças ao longo do ano.
O sentido de comunidade vai muito além dos produtos. O Café & Coco recebe regularmente estagiários através de uma parceria com uma escola da zona. É o caso de Tiago, de 18 anos, que tem trissomia 21 e está a concluir um estágio profissional de 300 horas, iniciado em maio. Durante este período aprendeu a tirar cafés, servir às mesas, repor produtos e apoiar o balcão, uma experiência que diz estar a gostar de viver.
Tânia aceitou o pedido da escola sem hesitar. Quis ajudar a responder à falta de vagas de estágio para estes alunos. A decisão também resulta da sua própria história familiar. Cresceu com um irmão mais velho com necessidades especiais e acredita que essa vivência moldou a forma como olha para a inclusão. Para si, é importante que as pessoas se habituem a conviver naturalmente com a diferença.
O Café & Coco serve tostas mistas e galão, habituais de cafés tradicionais, mas o seu foco são as opções saudáveis e aptas para pessoas com restrições alimentares. A preocupação com a alimentação saudável remonta também à própria história pessoal de Tânia. “Não como carne há vinte anos”, conta a proprietária, que também não segue esse cuidado apenas por questões estéticas, mas sobretudo por saúde. Essa filosofia passou a orientar a ementa do café, com uma variedade de salgados com legumes, opções vegan e sem glúten. “Acho que nós somos muito aquilo que comemos, e não fazia sentido estar aqui sem passar isso para os clientes”, resume. A alimentação saudável ainda é uma tendência recente, mas Tânia nota que até a comunidade sénior, que representa uma boa parte da clientela do café, tem vindo a abraçar cada vez mais este tipo de opções.
A sopa (1,90€), sempre 100% vegetal e feita com legumes da época, é um dos pratos mais procurados, a par do arroz doce (2,70€) feito pela própria Tânia. No café não se servem refeições completas, mas há sempre uma opção ligeira disponível, das oito às 17 horas, de segunda a sexta-feira, como uma tosta de fiambre ou queijo (3,90€) ou uma empada caseira de espinafres (2,20€).
Do lado das sobremesas, a queijada de maracujá e a queijada de amêndoa e moscatel custam 2€ cada, e um cheesecake saudável está disponível por 4,80€. Há ainda o “Snicker saudável” (4,50€), sem açúcar e sem glúten, feito por Karol Costa, uma das parceiras mais recentes do café.
E porquê Cafe & Coco? O nome tem uma explicação simples: a zona onde fica é conhecida como Quinta das Palmeiras, e o “coco” no nome faz referência direta às palmeiras da região. Com 22 lugares distribuídos por 60 metros quadrados, o Café & Coco continua, passados 17 anos, a ser um ponto de encontro para o bairro.
Essa ligação vê-se também nos clientes. Durante a visita da NiO, Jorge, de 77 anos, entrou para pedir o café de sempre. Conhece Tânia desde pequena, foi cliente da mercearia dos pais, e hoje continua a passar pelo Café & Coco, onde um simples cumprimento resume mais de 50 anos de relação entre uma família e um bairro.








