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Daniel Aboim: o advogado oeirense que largou tudo para ser padeiro

Porém, a pandemia fez com que perdesse o primeiro emprego numa padaria e montasse o seu próprio negócio.
São deliciosos.

Daniel Aboim tem 41 anos, 12 deles passados como advogado, em Algés. “A certa altura fartei-me completamente do Direito e, enquanto não descobria aquilo que queria fazer, trabalhei em gestão imobiliária, tratei de vários alojamentos locais”, conta à New in Oeiras.

No início de 2018, fez um workshop com Paulo Sebastião, fundador da padaria Isco, porque sempre adorou pão. “Costumo dizer, eu vivia bem a pão e água [risos].” Mas foi a complexidade, ou neste caso a falta dela, que mais o surpreendeu na oficina: “Sempre pensei que fazer pão era uma tarefa extremamente complexa, que exigia grande maquinaria. E afinal não.”

Daniel é oeirense e os seus avós são lisboetas. “Nunca tive a experiência de ir à terra, daí estar um pouco afastado destas atividades mais tradicionais.” Com o workshop, o antigo advogado aprendeu a fazer pão em casa e nunca mais o voltou a comprar. Passou a ser cliente assíduo do moleiro Paulino Horta, em Alenquer, onde compra as suas farinhas moídas em mó de pedra.

Uns meses depois, ingressou no curso de Padaria Avançada na Escola de Hotelaria das Caldas da Rainha. Durante seis meses, Daniel apanhava um autocarro de manhã em Lisboa e chegava duas horas depois à escola, ao final do dia, depois de cinco horas de aulas, fazia o caminho inverso.

Lá, aprendeu todas as técnicas e processos para fazer o pão à moda antiga. “Este tipo de pão não tem nada a ver com o comum, que se vende por exemplo no supermercado. Pela matéria prima, e sobretudo pelo processo de fermentação lenta.”

Quando a água e a farinha entram em contacto, os microrganismos de ambas começam o processo de fermentação. Essa fermentação demora no mínimo seis horas. “Em muitas padarias em que o processo é de massificação, não é respeitado esse tempo. Daí muitos pães serem difíceis de digerir e até criarem inchaço na barriga, porque os microrganismos continuam a fazer esse processo no nosso estômago.” Os pães de Daniel fermentam entre as seis e as 24 horas.

Em fevereiro, Daniel conseguiu o seu primeiro emprego como padeiro. A padaria Cria, em Cascais, estava a aumentar o volume de produção e precisava de alguém que conhecesse os processos de fabrico artesanal de pão. Porém, pouco mais de duas semanas depois do início do trabalho, Diogo foi dispensado devido à pandemia do novo coronavírus e o confinamento, que levou a que muitos dos clientes da padaria, restaurantes e escolas, fechassem.

Com a sua mulher também desempregada, e o alojamento local prestes a encerrar, Daniel tomou a decisão de começar a fabricar pão em casa para vender a amigos e família. “Fazia o pão no forno de casa, mas só conseguia fazer um de cada vez. Através do Instagram, o volume de encomendas aumentou e começou a ser impossível. O negócio estava a tomar conta da nossa cozinha.”

Uma decisão difícil impunha-se: gastar todas as poupanças da família num forno maior e próprio para pão. Ao mesmo tempo, Nuno Markl tomava conhecimento deste pão e ficou fã. “Partilhou duas vezes nas redes sociais e foi a loucura.” O novo forno tinha capacidade para 15 a 18 pães, e Daniel continuou a fazer entregas ao domicílio, agora para clientes já desconhecidos.

Mais uma vez, o negócio cresceu e, no final de agosto, o padeiro arranjou um espaço em Algés. O número 119 da Rua Luís de Camões é agora a fábrica do delicioso pão de Daniel Aboim que, brevemente, irá abrir portas aos clientes e funcionar como padaria. “As entregas ao domicílio irão continuar, mas ainda este mês irei abrir e os clientes poderão vir cá.”

Por enquanto, pode receber o pão da Padaria do Vizinho em casa, às quartas, quintas e sextas-feiras, entre as 14 e as 16 horas. Estão disponíveis quatro variedades, todas de 500 gramas: pão de trigo (3€); pão de mistura (3,50€); pão com sementes (4€); e pão com figos secos, passas e nozes (4€). Pode encomendar através da página de Instagram da padaria.

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