Foi há cerca de 45 anos que Armindo Costa criou a improvável receita que viria a cruzar fronteiras e chegar a países como Brasil, Canadá ou Inglaterra. O doce que conquistou esse feito e colocou Oeiras neste mapa açucarado? A Queijada de Algés.
Aos 68 anos, Armindo soma mais de meio século ligado à restauração, com passagens por espaços como o restaurante 3.º Anel, no Estádio da Luz ou os Pastéis de Belém. Em 2020, decidiu abrir uma pastelaria em Algés, onde vive há quase cinco décadas, e lançar uma especialidade própria associada à terra. As Queijadas de Algés são feitas diariamente pelo próprio e vendidas exclusivamente no Boa Papa.
“Moro em Algés há 49 anos e quis dar o nome das queijadas ao sítio onde abrisse a loja. Levanto-me todos os dias de madrugada e entro no Boa Papa entre as 3h30 e as 4 horas. Não deixo ninguém fazer a minha receita”, conta sobre o secretismo que envolve o doce. A preparação demora entre quatro a cinco horas e, por dia, são produzidas entre 200 a 300 unidades. “Na maioria dos dias vendo tudo”, afirma com orgulho sobre as queijadas que podem ser compradas à unidade (1,60€) ou em caixas de seis (9€).
Com uma massa estaladiça e um recheio coberto com açúcar em pó, conquistaram clientes locais e também internacionais. “Tenho um cliente que todas as semanas encomenda oito dúzias. É um pastel que dura mais de uma semana.” Há também quem as leve para fora do País. “Já foram para o Brasil, Canadá e Inglaterra”, nota.
A receita inclui um ingrediente menos comum. O recheio é feito com amêndoa moída, feijão e um toque de coco. “Leva um pouco de coco para equilibrar a acidez da amêndoa. A forma como é confecionada é um segredo”, assegura.
No Boa Papa, as queijadas dividem protagonismo com outras propostas, sobretudo na época de Natal. “Em dezembro vendi 10 mil fatias douradas. Na semana antes do Natal dormi 12 horas no total. Sou eu que faço tudo e há muitas encomendas”, conta. No espaço com capacidade para 80 pessoas, também se servem almoços com pratos do dia entre os 12€ e os 15€, além de petiscos portugueses.

Armindo trabalha há 54 anos e há quatro décadas que recusa tirar férias. “Trabalho por gosto e porque é o que sei fazer”, explica o empresário que nasceu em Vila Real, numa família ligada ao comércio de carne, e veio para Lisboa aos 13 anos. “Éramos oito irmãos e ninguém ficou lá.” Instalou-se em Belém, onde começou a trabalhar numa pastelaria.
Aos 19 anos casou-se e mudou-se para Algés, onde vive até hoje. Passou por vários espaços na zona de Belém, incluindo os Pastéis de Cerveja e os Pastéis de Belém, até que, aos 20 anos, abriu o primeiro negócio próprio, a pastelaria Pão de Mel.
Seguiram-se outros projetos, como a Pedra Verde, em Camarate, e a Bica Bela, em Benfica. Mais tarde, recebeu uma “proposta irrecusável” para integrar a sociedade do restaurante 3.º Anel, no antigo Estádio da Luz. Durante oito anos, trabalhou com várias figuras do futebol e viveu períodos de grande movimento. “Num jogo Benfica – Sporting chegávamos a faturar 50 mil euros entre as 9 e as 15 horas.”
Depois de vender a sua quota, continuou a abrir novos espaços em Lisboa. “Cheguei a ter quatro ao mesmo tempo e fazia questão de estar presente em todos. Cheguei a adormecer ao volante de tanto cansaço.”
Acabaria por vender todos os negócios e, em 2011, abrir o seu favorito, o Boa Papa, em Santos. “Gostei tanto daquela casa que decidi trazer o nome para Algés. Foi feita por mim, montei tudo: escolhi o tom das paredes, salmão, até aos candeeiros. Estive por lá três anos e meio, até que vendi o espaço a um indivíduo que me estava a tentar comprar a casa há mais de um ano. Dei-lhe um valor louco de dinheiro como proposta de venda, a pensar que nunca aceitaria, mas aceitou”, diz.
A casa recebia personalidades ilustres ligadas à política, entre elas Paulo Portas. Servia gastronomia portuguesa e apesar do sucesso eventual, o arranque foi turbulento: no primeiro mês vendeu apenas uma refeição. “Lembro-me de abrir a casa e num mês só ter servido uma refeição, tinha cinco empregados comigo. Não desisti porque tinha investido muito dinheiro. Até que começou a encher e a ganhar reconhecimento”, diz, sobre algum destaque na imprensa que ajudou a dinamizar a casa, que começou a encher regularmente. “Já depois da meia-noite, havia quem fizesse fila”, recorda. “Chegava a sair de lá só pelas três da manhã. Era uma casa fina, quem vinha sabia que gastava entre 40 a 50€. Cheguei a ganhar o concurso da melhor Patanisca de Lisboa em 2012″, recorda com orgulho.








