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António criou uma pastelaria à frente do seu tempo. Hoje é ponto de encontro em Paço de Arcos

Há três décadas que a Queques da Linha junta oeirenses antes e depois do trabalho. Chegou a vender mais de 40 tipos de queues e foi pioneira no uso de cartões digitais.

Estávamos nos anos 90 e para o cliente comum, receber um cartão plástico ao entrar num café, era um gesto pouco visto. Para António Santos Tavares, o uso de um sistema digital de registo era uma decisão óbvia, e foi assim que o seu Queques da Linha, em Paço de Arcos, se tornou num dos negócios que adotou mais precocemente a ferramenta.

“Fomos pioneiros no pagamento com cartões”, recorda, sobre o método de registar toda a conta do cliente no cartão, apresentado posteriormente na caixa para pagamento. Mas a pastelaria de Oeiras não ganhou fama por causa dessa inovação. Na montra, chegaram a ter 40 variedades de queques. Esses tempos já lá vão, mas o espaço mantém intocado o estatuto de ponto de encontro de locais, sobretudo nas horas de partida e regresso do trabalho.

O percurso deste oeirense adotado começou em 1942, em Pinhel, na Guarda. “Fiz a quarta classe, mas como na altura os filhos faziam era falta no campo, até ir para a tropa, com 23 anos, fiquei a ajudar os meus pais no cultivo. O meu professor ainda me incentivou a continuar a estudar, porque dizia que era bom aluno e inteligente, mas não havia dinheiro”, recorda o proprietário de 83 anos.

Em 1965 fez o serviço militar e aproveitou para continuar a estudar. “Fiquei dois anos na Guiné e depois um em Portugal. Tirei a carta e ia estudando e aprendendo tudo o que podia”, conta. Quando regressou a casa percebeu que o futuro passava por sair da terra natal e tentar a sorte na capital.

Aos 26 anos mudou-se para Lisboa e começou a trabalhar na Carris como agulheiro, responsável por mudar a direção dos carris para as carruagens seguirem o caminho correto. “Tínhamos turnos, durante o dia ou de noite, e como era por escalas percorria muitas ruas de Lisboa. Estava atento e quando vinha a carruagem, metia a agulha consoante o destino”, recorda.

A progressão foi rápida. Passou a revisor e pouco tempo depois a condutor. “Em menos de um ano já era condutor e percebi que tinha capacidades para mais, então candidatei-me a uma empresa norte-americana de tecnologia.”

Foi também nessa fase que decidiu investir nos estudos e entrou no ISEG, Instituto Superior de Economia e Gestão, num curso de economia de cinco anos. “Queria estudar e melhorar a minha vida. Logo no segundo ano dos estudos candidatei-me a um banco para trabalhar e entrei nos escritórios de Lisboa do banco Borges & Irmão, local onde trabalhei até me reformar.”

Aos 28 anos apaixonou-se e a vida mudou novamente. Casou e foi viver para Queluz. Mais tarde nasceram os filhos, em 1975 e 1978. A mulher, Maria Alcina, ficou inicialmente em casa a cuidar deles, mas rapidamente percebeu que queria mais. “Ela insistia comigo que queria trabalhar e viver mais. Nunca mais me esqueço do dia que ela me disse ‘não quero ficar mais em casa fechada só com os miúdos, vou tornar-me numa mulher que não sabe conversar e sem vivências’, aquilo marcou-me, porque tinha razão.”

Decidiram então abrir um negócio. Em 1980 compraram um espaço na Rebelva, em Carcavelos. “Custou-me três mil contos, vendíamos um bocadinho de tudo, até eletrodomésticos. Ao fim de três meses o espaço começou a faturar o dobro.”

O gosto pelo comércio manteve-se. Em 1983 encontrou uma loja em Paço de Arcos com cerca de 500 metros quadrados. Comprou o espaço por 20 mil contos e abriu o supermercado Joaninha, outro espaço marcante para muitos moradores da zona. “Meti duas caixas, um talho e vendíamos todo o tipo de produtos. Na altura foi revolucionário”, recprda-

Três anos depois vendeu o mini mercado de Carcavelos e mudou-se com a família para Paço de Arcos. Durante um passeio pelo bairro reparou numa grande loja à venda na mesma rua onde morava e não resistiu ao impulso.

Um ponto de encontro para todos

António sentia falta de pequenos comércios na zona. “Comecei a ver que faltava um espaço de convívio, onde pudesse beber um café com amigos, mesmo depois de me reformar. Era o meu bairro e queria sentir-me bem a viver por ali.”

A inspiração surgiu das manhãs em Lisboa, quando saía do comboio no Cais do Sodré para ir trabalhar. “Percorria toda a rua do Arsenal em direção à Praça do Município, entre as inúmeras pastelarias, todos os dias escolhia uma diferente, mas eram todas iguais. Balcões compridos altos, em que os clientes nem se sentavam. Bebiam a bica e seguiam a vida. Eu gostava de algo mais intimista e até higiénico, fazia-me confusão as pessoas que me serviam eram as mesmas a receber o dinheiro da conta.”

Comprou o espaço por 70 mil contos e começou a desenhar um conceito diferente. “Sabia que queria um espaço onde as pessoas pudessem ficar à vontade, com tempo e calma. A segunda premissa era ter uma pastelaria com as melhores condições, que fosse diferente. Queria separar o balcão da caixa, quem servia os clientes não podia tocar no dinheiro.”

O conhecimento tecnológico adquirido no banco levou-o ainda mais longe. Descobriu na Alemanha um sistema que permitia registar produtos através de códigos e decidiu importar o equipamento. Depois comprou em França um sistema de bandas e leitores magnéticos.

Em 1992, só a Casa da Moeda produzia estes cartões em Portugal e António foi pessoalmente explicar a ideia. “Ao início pensavam que eu era um burlão, mas quando expliquei o que queria chamaram-me de génio. Foi complicado convencê-los e fazer com que acreditassem em mim, mas consegui que me vendessem 500 cartões.”

O processo demorou cerca de dois anos. Em 1994 abriu finalmente os Queques da Linha e o impacto foi imediato. “Foi uma loucura, tinha duas caixas de pagamento à saída da pastelaria, num espaço com cerca de 40 lugares chegava a meter mais de 60 pessoas de uma vez. Vinham pessoas de todo o lado, tive até o presidente Isaltino Morais a vir dar-me os parabéns.”

A casa tornou-se rapidamente num ponto de referência em Oeiras. A especialidade eram os queques, que chegaram a ter cerca de 40 sabores diferentes. “As pessoas ficavam confusas e não percebiam como é que uma pessoa que não os tinha atendido sabia exatamente o que tinham pedido. Tornou-se um espaço sofisticado e muito procurado.”

Nos Queques da Linha tudo o que é servido é feito de madrugada. Há bolos tradicionais, queques de sabores clássicos como maçã, chocolate, kiwi, caramelo ou nozes, além de pão e vários doces.

Apesar do ambiente elegante, sempre foi um espaço aberto a toda a gente. “De manhã mantém-se a azáfama de quem vem beber um café antes do trabalho. Antes tínhamos mais casais perto da hora do almoço, agora temos mais jovens que vêm das escolas. Durante a tarde é mais fraquinho, mas ao fim do dia regressa a procura pelos últimos pães e bolos do dia.”

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. Conde das Alcáçovas 14,
    2770-032  Paço de Arcos
  • HORÁRIO
  • De segunda a sexta-feira das 7 às 20 horas
  • Sábados e domingos das 7h30 às 20 horas
PREÇO MÉDIO
Não disponível

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