Durante alguns meses, parecia que tudo podia mudar. Depois dos confinamentos, quando o comércio local voltou a abrir portas, a Mercearia do Sr. Afonso viveu um inesperado rasgo de esperança. “Nem queria acreditar, tínhamos filas para entrar o dia todo. O mais procurado na altura foi o papel higiénico, os enlatados e a fruta. Mas levavam tudo”, recorda Afonso Monteiro, 72 anos. A faturação duplicou, algo que já não acontecia há muito tempo, e durante semanas instalou-se a ideia de que, depois de um período tão traumático, os hábitos de consumo poderiam transformar-se.
Mas a euforia foi breve. Aos poucos, os clientes voltaram às grandes superfícies e aos apelos de promoções constantes. Na mercearia de Caxias com 50 anos de história, o movimento voltou a abrandar. “Desde que as grandes cadeias foram abrindo em Paço de Arcos que notamos muita diferença. Somos como um SOS, tirando os clientes habituais, quem nos visita vem sempre à procura de algo que necessita à última da hora”, explica.
O impacto agravou-se com a abertura de um Lidl na área de serviço da A5, a menos de dez minutos dali. “Há uns quatro anos para cá que tem sido complicado, principalmente depois da época da pandemia, que foi uma loucura”, acrescenta. Hoje, quase um século depois da abertura, a Mercearia do Sr. Afonso — de portas abertas desde 1927, mas só há 50 como mercearia — resiste como pode numa “zona de passagem”, onde já são poucos os que param para ajudar o comércio local.
A história de Afonso confunde-se com a do próprio espaço. Veio de Sernancelhe para Lisboa com apenas 13 anos, irmão mais velho de uma família modesta, à procura de trabalho. “Vim completamente sozinho. Cheguei a Caxias e a Dona Zulmira [proprietária da loja] ficou comigo e assim que comecei a trabalhar aqui, nunca mais saí”, relembra. Ficou ao cuidado da antiga proprietária e, mais tarde, tornou-se dono do negócio com a mulher, Agostinha Monteiro, hoje com 74 anos. Quando ali começou, a loja ainda era uma padaria de fabrico próprio. Há cerca de 50 anos transformou-se em mercearia e tornou-se numa das mais procuradas da zona.

“Antigamente isto era uma loucura. Tínhamos muita clientela, chegava a vender toda a fruta só numa manhã”, conta. Nesses tempos, “vendíamos um bocadinho de tudo” e os sábados eram dias especiais. “Toda a gente vinha à rua, fazer as compras todas”. O espaço, com cerca de 70 metros quadrados, sempre teve de tudo um pouco, frutas da época, sal, garrafas de vinho, produtos de higiene, iogurtes, enlatados, queijos do norte do País. E mantém uma característica rara nos dias de hoje. “Desde o início e até hoje só aceitamos pagamentos em dinheiro. Sei que isso dificulta no negócio, mas não nos ajeitamos com as máquinas”, admite.
O casal trabalha sozinho há mais de uma década. O esforço é constante. Afonso vai às segundas, quartas e sextas-feiras ao MARL buscar frescos, o produto mais procurado. “Vou às segundas, quartas e sextas-feiras às compras dos frescos, ao MARL, que é o que mais vendemos aqui. Na semana passada, tivemos um dia em que nas primeiras horas da tarde já não tínhamos nada”. Apesar disso, há uma perceção que considera injusta. “As pessoas têm a ideia de que aqui os preços são mais caros, mas na fruta e legumes os nossos valores são mais baixos e temos mais qualidade”, garante. Aos sábados, ainda faz entregas a “clientes habituais e já idosas” numa carrinha pela zona.
Mas o peso dos anos começa a fazer-se sentir. “Estamos cansados desta vida. Temos mais de 70 anos e as coisas começam a ser mais difíceis, as caixas são pesadas e até fazer a limpeza já custa”, confessa Agostinha. A incerteza paira no ar e será mais do que certo que, dentro de pouco tempo, a zona perderá mais um negócio familiar que atravessou gerações. “Queríamos aguentar mais uns anos, mas sinceramente não sei se conseguimos. Os nossos filhos não querem ficar com isto e o mais certo é fecharmos portas em breve”, conclui Afonso.

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